segunda-feira, 13 de julho de 2026

DRAMATURGIA CAATINGUEIRA: O ator, diretor do Grupo Caçuá de Teatro e dramaturgo conquistense Marcelo Benigno é um dos 40 selecionados para o Circulo de Dramaturgias do CPT em São Paulo.

O ator, diretor do Grupo Caçuá de Teatro e dramaturgo conquistense Marcelo Benigno é um dos 40 selecionados para o Circulo de Dramaturgias do CPT em São Paulo. Inspirada no Círculo de Dramaturgia, criado em 1999 pelo diretor teatral Antunes Filho, a nova edição do projeto contará com a formação e mentoria de Alexandre Dal Farra, Angela Ribeiro, Ave Terrena e Jhonny Salaberg, artistas de destaque no campo da escrita dramatúrgica contemporânea.
O percurso formativo visa oferecer um espaço de desenvolvimento, investigação e troca de conhecimento entre pessoas interessadas em desenvolverem suas escritas cênicas. O curso de longa duração que acontece na icônica sede do CPT no SESC Consolação será composto por estudos de teorias, atividades práticas de escrita, orientações em grupo e individuais, que visam estimular a experimentação artística e o fortalecimento de redes criativas no campo das artes cênicas. Ao final da formação, serão realizadas aberturas de processos ao público. Benigno que na seleção para o curso, com quase 200 inscritos, escreveu um texto em cordel reafirma a importância de ocupar os espaços com a cultura popular e outras formas de dramaturgia dirigidas, sobretudo, para outros públicos e formatos.
O curso começou com as intervenções poéticas e provocadoras de Jhonny Salaberg. Benigno (foto) em jogo num dos exercícios da primeira semana do curso no final de junho. Jhony Salaberg que também é ator estará em cartaz em Salvador comemorando 15 anos do espetáculo, “Namíbia, não!” sob direção de Lázaro Ramos. A peça é baseada no livro ganhador do Prêmio Jabuti que inspirou também o filme Medida Provisória. Única apresentação no dia 31 DE JULHO, sexta-feira - 20h no Teatro SESC Casa do Comércio.
Enquanto isso, Benigno se dedica as vivências do Círculo de Dramaturgias que vão até dezembro, aos preparativos das comemorações dos 30 anos do Grupo Caçuá de Teatro em Conquista, além das Desmontagens do seu Doutorado em Artes Cênicas sob a orientação do Prof. Dr. Wellington Menegaz que fará em Uberlândia e Londrina, intitulado: “Três, três passará, derradeiro ficará – O Professor Brincante, o Drama e a Cartografia – Metodologias de ensino para transformar a aula e alegrar o dia a dia!” Mas isso já é tema e pauta para uma outra história. Sobre os (as) Artistas Orientadores (as) do Círculo de Dramaturgias do CPT 2026: Alexandre Dal Farra: doutor pela ECA/USP, é roteirista, diretor e dramaturgo, autor de 27 peças teatrais e diretor de 14 delas, além de vencedor e indicado aos principais prêmios brasileiros. Escreveu e dirigiu seu primeiro curta-metragem Boca Dura, exibido em festivais no Brasil e no exterior. Seu novo livro, O Transe em Nós, está em revisão pela Editora n-1. Angela Ribeiro: atriz e dramaturga paraense formada pela EAD/USP, pelo CPT Sesc e em dramaturgia pelo SESI British Council. Vencedora do Prêmio Shell de Teatro em 2018 pelo texto Refluxo. Possui uma carreira no cinema, integrando o elenco de produções como Ainda Estou Aqui, Pssica, José e Durval, Escola sem Muros, Biônicos, Cyclone e Raquel 1:1. Ave Terrena: é dramaturga, poeta, diretora, performer e orientadora na ELT de Santo André. Integrante do grupo LABTD e da House of Hands Up (SP) formou-se em Letras pela USP e pelo Núcleo de Dramaturgia SESI British Council. Entre suas principais obras estão As 3 Uiaras de SP City, Fracassadas BR, Lugar da Chuva e Cartas de uma Travesti Brasileña. Jhonny Salaberg: dramaturgo, ator formado pela ELT de Santo André e membro fundador do coletivo O Bonde. Autor de diversas peças, dentre elas Mato Cheio e Buraquinhos ou O Vento é Inimigo do Picumã com a qual venceu sete categorias nas principais premiações teatrais do país. Conquistou a IV Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

QUEM MATOU PADRE PINTO? OU PEDI PRA PARAR, PAROU! As 14 estações da Via-crúcis do espetáculo baiano em Essipê

QUEM MATOU PADRE PINTO? OU PEDI PRA PARAR, PAROU! As 14 estações da Via-crúcis do espetáculo baiano em Essipê
Fui assistir ao espetáculo teatral: “Padre Pinto – a narrativa (re)inventada” protagonizado pelo brilhante ator baiano Ricardo Bittencourt, com dramaturgia e direção do meu querido e eterno professor Luiz Marfuz, nessa semana no Sesc Pompeia em São Paulo e sai com algumas reflexões. O espetáculo é bonito, colorido, alegre, tecnicamente amparado, com cenas marcantes e emocionantes (como a quebra da quarta parede em que o ator pede licença para emprestar o seu cavalo para interpretar o protagonista. De arrepiar! Xocotô Berulô) ainda mais para um baiano como eu, que conheci o personagem real e a Lapinha, mas se torna em alguns momentos politicamente correto. Ao procurar na internet sobre o trabalho vemos como os veículos de comunicação e criticas começam falando dele: “Após se vestir de Oxum – orixá feminino do candomblé para celebrar uma missa e dançar dentro da igreja em 2006, Padre Pinto (1947 – 2019) atrai a ira dos conservadores e a atenção da mídia nacional....” Não, Padre Pinto não foi só isso e quem é baiano ou soteropolitano sabe muito bem. 1ª Estação: Ator convidado é condenado
Essa necessidade de resumir a trajetória de alguém na intenção de diminuí-la é tão peculiar e colonialista como o modismo (ou o mercado) de convidar atores televisivos para elencos de peças de teatro. Ano passado, Reynaldo Gianecchini ao estrear o Musical "Priscilla, a Rainha do Deserto" não deu conta do recado. Foi corajoso ao comprometer sua fama de galã e se jogou, mas fazer uma drag queen não é pra qualquer um(a). Afinal, vamos assistir a uma peça ou Musical só para ver o tal ator/ atriz televisivo? Em Padre Pinto Sergio Marone cai na mesma armadilha que Gianecchini. Duro em cena, voz extremamente impostada, não veste a roupa da personagem. Marfuz, o diretor, tinha que ter levado Marone para fazer laboratório de pelo um mês em Salvador para ele entender do que a peça fala. Ir à Lapinha, ao Cortejo Afro, passar no Ancora do Marujo na Carlos Gomes ou nos antigos bares da Ladeira da Montanha para o ator soltar um pouco esse quadril. Teatro não é televisão, assim como Oxum não é Nossa Senhora da Guia! 2ª Estação: Ricardo Bittencourt carrega o espetáculo
Ricardo incorpora o Padre Pinto, literalmente. Brilhante trabalho de ator que merece prêmios nesse ano, seguido pelo seu Canjerê interpretado magnificamente pelo ator Victor Rosa, que joga e se amálgama o tempo todo com Ricardo, que é um monstro sagrado/profano do teatro. (Difícil missão, mas ele consegue). Outros destaques são as baianas Agatha Matos, sempre exuberante como legitima baiana conhecedora do chão que pisa; Rita Brandi, numa entrega total e com toda sua baianidade real traz força ao elenco de atores baianos, que credita originalidade ao trabalho e ao elenco do Oficina. Do Oficina a surpresa foi o ator Gabriel Frossard que se transmuta em tantos personagens e nuances para um jovem ator. Sylvia Prado e Mariano Matos já são cobras criadas do Uzyna Uzona e deixam seus rastos como Oxumarê por onde passam, exibindo maestria e refinamento em suas construções, assim como o baiano Tony Reis, que poderia estar mais baiano que nunca, né, painho?! 4ª Estação: O espetáculo encontra a sua Mãe A parte técnica do trabalho é impecável! Figurinos, luz, cenografia, trilha sonora, projeções, vídeo. Com essa mãe abraçando o filho, com todo esse aparato e amor, não é difícil fazer um trabalho que não cresça os olhos da plateia. Poderia ser um monólogo com Ricardo, pois ele sozinho não precisa de todos esses recursos! O teatro é a arte do ator, não esqueçam!
O coração na cenografia é lindo e se transforma numa cena forte. Em alguns momentos os vídeos parecem uma campanha do Governo do Estado da Bahia para visitar Salvador, aliás, a Bahia não é só Salvador, a Bahia é composta por 417 Municípios divididos em 28 territórios de identidade. A Regionalização Territórios de Identidade foi adotada pela Secretaria de Planejamento do Estado da Bahia (SEPLAN) através da Lei nº 10.705, de 14 de novembro de 2007, quando lançou o Plano Plurianual 2008-2011, e contava à época com 26 Territórios de Identidade que abarcavam os 417 municípios. (SEI – Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia: Estado da Bahia.). Então, muita calma nessa hora em achar que na Bahia só é festa, litoral, axé e Carnaval.. Opaió?! E nessa Identidade Cultural que é muitas vezes desconhecida é que mora a força de uma Cultura Popular, que está lá na Lapinha, onde o Padre Pinto revitalizou a Festa de Reis. Momentos lindos da montagem que pega ponga na cultura popular. Quais manifestações da Cultura Popular esse público ou elenco conhece e as tem no seu corpo/arte/discurso?!
O tom politicamente correto do espetáculo incomoda. O próprio Zé Celso se estivesse por aqui falaria para Marfuz: - Marfuz, tá muito careta! Padre Pinto era transgressão política, não só fechação! Pois Zé! Na cena final onde o Emissário é encurralado pelo elenco, por exemplo, deveria ser é devorado como as Bacantes fizeram com Caetano, mas talvez as cláusulas do ator televisivo não permitam e nem ele também. Saudades de Eduardo Pelizzari que quando passou pelo Oficina escancarou em talento se desnudando de corpo e alma. 14ª Estação: Padre Pinto é Sepultado e o rebobinar da peça real
Ao final do segundo ato depois de todo mundo rir a morrer de uma tragédia real, o Padre é morto. Morto. Daquela forma. Daquele jeito. Morto. Quem matou Padre Pinto? A Igreja Católica? O Vaticano? O Emissário? O grupo de fiéis conservadores? Eu, você, nós?! Por mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, o Padre “ressuscita” no final da peça. Padre Pinto não “ressuscitaria” no rebobinar da fita falando que não seria esquecido, ele pediria justiça, evocaria Xangô para que sua memória fosse um alerta e não só uma lembrança festiva. Marfuz tenta em alguns momentos fazer algum questionamento político, como na cena inspirada no espetáculo: “Cuida Bem de Mim”, (1996) de sua autoria junto a Filinto Coelho, que ele dirigiu no Liceu de Artes e Ofícios, em Salvador, onde discutia direitos com jovens estudantes numa escola pública, onde o elenco grita palavras e diretos de ordem.
Após o intervalo, o espetáculo poderia enfatizar mais sobre essa morte tão violenta que tantos ainda hoje sofrem. As pessoas confundem o poder da festa, da alegria e do Brincante. Trabalho com isso vivo disso, e Padre Pinto é só um exemplo da sociedade em que estamos inseridos. Claro, que na Bahia é diferente. Não é uma peça de Teatro Documental e autobiográfico da Janaina Leite. A responsabilidade da Produção agora é levar esse trabalho para Salvador, pois tem o dever ético de ser apresentado lá, e de preferencia de graça pro povo da Lapinha ver!
A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo. Vladimir Maiakóvski. Sem panem et circenses! Viva o Padre Pinto! Saudades dele e do Zé. A peça continua em cartaz até o dia 23 de fevereiro de 2025 De quinta a sábado às 20h. Domingos e feriados às 17h. Vale a pena conferir! PS: Os créditos das fotografias que estão nesta postagem são de Luis Ushirobira @lushirobira. A Via Sacra, também conhecida como Via Crucis, é uma prática cristã especialmente comum durante a Quaresma que recria o caminho que Jesus percorreu carregando a Cruz desde o Pretório de Pilatos até o Calvário, onde foi crucificado. Essa jornada é marcada por estações que representam eventos significativos desse percurso, convidando os fiéis a refletir sobre o sofrimento e a redenção através da paixão de Cristo. A Via Sacra é composta por 14 estações, cada uma representando um episódio específico da paixão de Cristo. Essas estações incluem passagens bíblicas, tradições da Igreja e elementos simbólicos que ajudam os fiéis a meditar sobre o significado da morte e ressurreição de Jesus As outras estações da Via Sacra só saberá quem for ao espetaculo e conseguir a redenção dos seus pecados. Amém!

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Quantos muros teremos que destruir para ainda sermos vistos??!

Foto´Amanada Barreto
Fui ver pela segunda vez o espetáculo: “A Fuzarca dos Descalços” do Coletivo dos Anjos, da cidade de Jandira-Sp. Fuzaca sem o "r" é um termo muito usado na cultura popular para se referir a festa, festejo, folia, alegria e celebração. Mas estar na folia descalço, com os pés no chão, principalmente se for na lama, grama, mato ou barro, deve se ter todo o cuidado para não levar uma “topada” e machucar o pé ou saber andar descalço e pisar ou sambar muito bem nesse chão de barro tendo muita experiência nessas bandas para usar um termo da moda agora. A peça conta com uma super trupe por trás desse trabalho, mas antes de falar desse grupo só queria perguntar uma coisa: Quantos muros ainda terremos que destruir para sermos vistos mesmos sendo lindos, potentes, negros e interioranos??! Fiquei abismado pelo espetáculo não ter sido indicado em nenhuma categoria para o Prêmio Shell de Teatro. Falo isso porque no ano de 1997 em São Paulo, o grupo que eu estava participando ganhou dois Prêmios Mambembes de Teatro: de Melhor Espetáculo e Melhor Direção numa peça com 40 atores e atrizes no elenco e que com esse prêmio possibilitou muitas coisas, como por exemplo, que viajássemos pelo interior paulista, inclusive, indo apresentar na terra do dramaturgo do texto, Plinio Marcos, em Santos e sendo censurados. Um prêmio ou uma indicação implementa muitas coisas! Meu grupo de Teatro do interior da Bahia fez 25 anos o ano passado e já conquistou alguns prêmios e editais numa briga eterna briga entre o artista da capital e do interior e parece que isso acontece aqui na grande metrópole paulista também. Criamos até o MOVAI! https://movimentomovai.blogspot.com/2011/03/o-que-e-o-movai.html Acho que essas questões devem ser pautadas, além da inegável qualidade desse trabalho emocionante. Um “Esperando Godot” discutindo questões pretas com tanta poesia e lâmina é inacreditável! Sou e gosto de um teatro das antigas, daqueles com uma boa mensagem, além dos virtuosismos e efeitos especiais. São Paulo está cheio de espetáculos com seus respectivos públicos cada vez mais chatos e exigentes. Tem até gente que diz que não existe “teatro popular” aquele o qual acredito e faço. O Sudeste acha que só ele que faz teatro e arte no Brasil! Em Fuzarca dos Descalços o texto afiado do premiado dramaturgo Victor Nóvoa nos chacoalha com uma inteligência quase clownesca estampada na mensagem, na cara e o riso angustiado de não querer entender tantas verdades ditas na nossa cara como um clown. Isso é uma maestria do trabalho! Salloma e Éder são dois Augustos e Brancos e o erê de Éder pula várias vezes em cena! Salloma tem beleza, medo e mistério de um Caboclo de lança do Maracatu Rural. A cenografia funcional e a sonoplastia como outro personagem completa a obra. Queria não ter entendido o choro daquela cuica tocada por Ito (eu acho). Sou de terreiro e de escola de samba,não tem para onde fugir! E a mão de Aysha Nascimento na direção artística como uma Iansâ Onira se vê em vários momentos. É um trabalho para uma mulher dirigir, uma mulher preta. Esse elenco quase todo preto ou todo preto não fez diferença ao Prêmio Shell num dos melhores espetáculos do ano, ganhador de vários editais de circulação e não cobrando nada para se assistir o espetáculo, é bom que se diga, mas que mesmo assim precisa quebrar muitos muros para ser visto ou criar seu próprio prêmio como algumas instituições fazem para premiar os seus coligados. Que Exu traga a estrada para esse trabalho tão necessário e que precisa ser visto por muita gente ainda e Xangô, justiça! Serviço O Espetáculo terminou uma temporada no CCSP e na Oficina Cultura Oswald de Andrade Em maio terá uma circulação e pelo Proac Com 6 apresentações 2 na periferia da capital e 4 nas cidades do entorno Osasco Francisco Morato Barueri Imperdível! Fiquem ligados!

domingo, 13 de agosto de 2023

Havia uma pedra no meio do casulo- Mãos Trêmulas eclode em poesia num espetáculo sobre pessoas comuns como eu e você.

 

Havia uma pedra no meio do casulo- Mãos Trêmulas eclode em poesia num espetáculo sobre pessoas comuns como eu e você.


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

O conhecido poema de Drummond sintetiza o espetáculo Mãos Trêmulas com dramaturgia de Victor Nóvoa e direção de Yara de Novaes que encerrou sua temporada no Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo, no dia 10 de agosto desse ano.

A primeira interpretação do poema, a ”pedra” pode significar obstáculos, dificuldades, os problemas que podem impedir das pessoas avançar na vida, ou que transmitem uma sensação de cansaço por parte do poeta,  ficando sempre na memória de retinas fatigadas e vividas tal impressão.

Na nossa memória diante da fruição de Mãos Tremulas fica o registro de um acontecimento teatral de uma poesia e lirismos tocantes por motivos que não são óbvios.

A dramaturgia premiada de Victor Nóvoa já vem pronta. Mãos Trêmulas foi premiada pela II edição do Prêmio Dramaturgias Em Processo do TUSP, e também foi contemplado na 15ª Edição do Prêmio Zé Renato da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que possibilita a produção e circulação de espetáculos teatrais desenvolvidos por núcleos artísticos de grupos de teatro e pequenos e médios produtores.

Voltando a dramaturgia, nela, estão as indicações de quase tudo para uma excelente encenação.  Nóvoa brinca com suas memórias com as palavras ditas pelas bocas das personagens e lampejos do imaginário popular seu e de tantos outros, pois respinga no público como em mim e no meu Entre a Cruz, a Espada e a Estrada, que vi também possível para acontecer nessa capital paulistana que tanto segrega. No texto, ainda há indicações para o figurino, objetos de cena, músicas que permitem que a peça teatral passeie pelos elementos do teatro de forma natural, sem firulas ou efeitos pirotécnicos para chamar a atenção e isso a encenadora Yara de Novaes foi sábia ao perceber e explorar na encenação. Um texto teatral quando é completo apresenta as nuances prontas facilitando a vida da direção.

Nessa encenação, Yara optou pela singeleza! O lindo figurino de Fabio Namatame junto ao cenário de André Cortez compõe esse casulo borboletador em tons de ocre que é super bem utilizado durante a encenação. Parecia A mais forte de Strindberg onde em Festivais de Teatro das antigas víamos frequentemente por ser um trabalho “enxuto” e de boa produção para viajar.   Aliás, Mãos Tremulas é um teatro das antigas, pois conserva uma simplicidade técnica de falar óbvio da trindade:  texto, atuação e direção, o que tem se perdido na contemporaneidade, sobretudo, em São Paulo com tantas produções em cartaz com intuito mais comerciais que artísticos ou o de comunicar uma mensagem transformadora ao expectador.

Mãos Trêmulas avança ao expor em cena a relação de dois personagens idosos. Idosos, velhos, borocoxôs, maduros, longevos, ancestrais, da terceira idade? Embora a sinopse explorada noutras temporadas aponta que a peça reflete sobre pessoas descartadas pelo mercado de trabalho, e que seguem com perspectivas financeiras e desejos e, juntos, criam estratégias para não serem despejados ou ainda, sobre o etarismo de pessoas periféricas frente ao capitalismo, etc,  a  encenação toca num ponto primordial que a primeira cena deixa evidente: NOS OLHEM!!

Há pouco tempo na Bahia, junto ao Caçuá de Teatro, estivemos numa visita a uma casa de acolhimento para idosos. A primeira ideia que se pensa é de tristeza, morte, definhação, mas é o contrário, eles estão lá, vivos, alegres, tornando seu corpo memoria vivo! Temos uma visão tão equivocada da velhice! Na cultura popular a sabedoria dos mais velhos é referência, e esses corpos estão vivos, potentes, se divertem, até cozinham, ré-fazem e cozinham memórias num ato ação de suas trajetórias, cantam, bebem, dançam e transam. Nossa, ainda é tabu falar de sexo na terceira idade em pleno século XXI? Como se diz na Bahia: me deixe, vu, e me bata uma garapa! A cena é tão poética que parece um jogo de clowns, talvez vindo das vivencias do dramaturgo palhaço, que me lembra outro saudoso palhaço no seu linguajar, com quem tive o prazer de trabalhar na encenação do “Assassinato do Anão...", 1997-98, que também passou pelos palcos do Sérgio Cardoso, a sua benção, Plinio Marcos.

Ficaria horas falando dessa encenação e dos protagonistas divos, Cleide Queiroz e Plinio Soares. Essa encenação só é o que é, em grande parte, por causa desses dois artistas!

Pense nesse texto feito por atores jovens, não rola! Ou por atores mal resolvidos com seu corpo e idade? Ou por atores sem vivência que o texto aponta, também não! Aquele “tu” proferido no texto revela muito. A diva Cleide dá um banho de entrega junto com Plinio que carinhosamente a abraça de corpo e alma. Plinio é carinhoso por demais e muitas vezes abre os caminhos para sua parceira. Tu já viu numa relação entre homem e mulher quem é que manda? As cenas dos abraços, do soltar dos cabelos e a Dança das mãos trêmulas que ainda dançam é espetáculo a parte dentro da obra.

Hoje, 13/08/2023, às 19 horas,  a peça estará em cartaz na Mostra de Teatro Heliópolis e ainda dá tempo para correr e ver esse acontecimento teatral que espero ganhar mais prêmios e temporadas nesse ano, assim como o filme:   Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo que foi o grande destaque do Oscar 2023 e levou sete dos 11 prêmios em que concorria — incluindo o de Melhor Filme. A história se baseia na premissa do multiverso e da possibilidade de saltar entre uma realidade paralela e outra.  Os atores veteranos e por que não dizer velhos, idosos, borocoxôs, da terceira idade:  Ke Huy Quan, Jamie Lee Curtis, Michelle Yeoh levaram as estatuetas por suas atuações.

Assim como o filme superpremiado no Oscar e a peça Mãos Trêmulas no nosso Brasil Tupiniquim, onde suas cenas finais se correlacionam, que possamos extrapolar o multiverso criando outras realidades para pessoas que já viveram um pouco mais que nós e que ainda estão potentes, vivas, inteiras e felizes nessa encenação da realidade que podemos chamar de vida! A pedra do meio no caminho não é o que parece! O envelhecimento é um processo natural, que merece respeito, dignidade e condições para eclodir, renascendo, sobrevivendo! Sons do mar! Odoyá, A ancestral não sai de cena um só momento! Saluba Nanã!


As fotos usadas nessa postagem são de Noelia Nájera.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

MUTAÇÃO DE APOTEOSE DO OFICINA ESTREIA NA VIRADA CULTURAL EM SÃO PAULO. MAS CADÊ O SERTÃO?!

 

MUTAÇÃO DE APOTEOSE DO OFICINA ESTREIA NA VIRADA CULTURAL EM SÃO PAULO. MAS CADÊ O SERTÃO?!

 

O que se segue são vagas conjeturas. Atravessamo-lo no prelúdio de um estio ardente e, vendo-o apenas nessas quadra, vimo-lo sob o pior aspecto. O que escrevemos tem o traço defeituoso dessa impressão isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto à serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra. (CUNHA, 1985, p. 110)

 

Estreou na Virada Cultural de São Paulo, dia 27 de maio de 2023, o novo trabalho do Teatro Oficina, intitulado: Mutação de Apoteose.  O Mutação ou A Mutação se auto define como um “acontecimento cênico-musical”, “é um carnaval multiespécie, é uma filosofia vegetal, é uma ficção especulativa contra a monocultura do pensamento, é um ato cosmopolítico de teatro, é um espetáculo de transmutação para a companhia, é a invenção de um mundo”, mas acaba se atropelando justamente pelo excesso de elucubrações e de elenco.  

O espetáculo “Mutação de Apoteose”, é inspirado em trecho de “A terra”, primeira parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Estreou na Sessão de Abertura da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty – Flip em 2019, realizada pela Universidade Antropófaga com direção artística da atriz Camila Mota.

Pelas redes sociais e pelo Instagram da companhia viam-se as chamadas entusiasmadas e inflamadas com frases de efeito do elenco sobre esse trabalho/experimentação. Umas das inspirações é a obra literária: “Os Sertões” de Euclides da Cunha.

Lá vem mais cariocas ou paulistas falando do Nordeste ou da Bahia! Em tempos de decolonialidade ou do termo decolonial em alta, esse não é o único equívoco cometido pelo grupo. O próprio Euclides da Cunha era carioca e foi enviado como correspondente ao Sertão da Bahia, pelo jornal O Estado de São Paulo, para cobrir a guerra no município de Canudos. “Do seu lugar de fala de homem branco, republicano, urbano, habitante do litoral, ex-militar e fruto de uma educação europeizada, Euclides enxergava o mundo por meio de instrumentos ideológicos que eram incapazes de darem conta do que havia visto no sertão de Canudos.” como diz o jornalista Fausto Salvatori no seu excelente artigo: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha: o racista que denunciou um genocídio. Mas voltemos a fruição da experiência onde um elenco numeroso e polifônico  e a encenação  e dramaturgia não dão conta do emaranhado de referências dessa geração desconstruide e intensa.

Nessa confusão Babilônica de vozes e discursos, a encenadora Camila Mota deve ter tido muito trabalho para tentar dar uma cara a essa ficção especulativa contra a monocultura do pensamento. Conhecemos a força e trajetória dessa artista! É evidente que Camila quebra um patriarcado dentro do Oficina encabeçando essa direção, (queria ver mais Cacilda, Camila, mais Cacilda com mais exclamações!!!!!) porém, nessa encenação em alguns pontos ela consegue êxito, noutros não.

O Oficina é um território conhecido do teatro paulistano e nacional e Camila sabe disso e usa tudo o que consagrou aquele teatro, como o melhor teatro do mundo, segundo o The Observer, do jornal  inglês dominical do The Guardian, a seu favor.

E que saudade do Oficina! Nesse ínterim, a encenadora explora todo o espaço cênico, fosso, céu aberto, área externa, vídeos com imagens, outra marca registrada do daquele Te-Ato.

Há uma previsibilidade para um público amante daquele teatro, e não sei se isso é bom ou ruim, mas a encenação não empolga como outros trabalhos anteriores da Universidade Antropófaga como: “Rito da Primeira Estação Pau Brasil” (2015) que revelou a maravilhosa atriz trans Wallie Ruy. Em Mutação o elenco poderia ser menor, pois um elenco numeroso atrapalha mais que ajuda, sem falar que a atuação de coro proposta pelo Oficina muitas vezes é desconhecida pelos novos atores e atrizes que ali pisam. Atuar, ou simplesmente existir naquele espaço não é fácil e as receitas stanislavskianas ou performáticas dos atores poucos valerão. Nessa tentativa de atuar e ser presença ou se fazer presente em cena vale tudo, até mesmo muitas caras e bocas e “carão”! É notório ver em cena, de cima da plateia, onde nada nos escapa, o desconforto de alguns, ou o corpo de cavalo morto para usar uma expressão do próprio Euclides da Cunha nos Sertões, de outros.

Quem salva o elenco, sem dúvidas, são os atuadores nordestinos e negres ali presentes.

Percebe-se nessa montagem uma profusão de atuadores nordestinos, (graça a Deus,)  que salvam o trabalho, assim como um país como nessa última eleição! Destaque total para atriz de Feira de Santana, Pitty Ferreira, que como candeeiro alumia o olhar do expectador. Ela aproveita seu estado de cena para encantar a plateia como iara catingueira, e quando aparece com uma sanfona tocando, mostra definitivamente para que veio. Fiquem de olho nessa moça!  Dan Salas e  Joel Carlos também não passam despercebidos em suas aparições. Loci, Loci!

O nosso olhar vageia e acaba pairando nas bacantes e sátiros cobras criadas do Oficina que agregam um valor altíssimo a encenação. Sem eles a fruição de acontecimento cênico musical poderia ser bem pior. Letícia, Nash, Dani, Ma Dalourzi, Cyro, Tulio, Kelly, Sylvia, Marcio Telles e uma Jennifer Glass plena na pista são um deleite daquele teatro, sem falar na luxuosa banda com o muso multiartista Gui Calzavara que fariam qualquer atuador se esmerar mais um pouco ao pisar e andar naquele terreiro eletrônico sagrado.  Não sabe brincar não desce pra pista! Andar, simplesmente andar pode parecer algo bobo para um atuadore, mas não é!

O elenco é afinado ao cantar, mas ainda está atrapalhado nas marcações de cena. Há momentos e imagens bonitas, como as entradas de Iemanjá e Oxum, que na rua já experimentadas anteriormente pelo Oficina soam infinitamente mais potentes, (para usar uma palavra da moda, dos que mal sabem o que é um rizoma), e a “passeata vermelha,” (de arrepiar!) que remete a tantas lutas que passamos nesse pais tropical.

O número cantado da atriz May Tuti dá seu nome, incorporado no seu corpo discurso todas as vozes das mulheres pretas que já passaram por aquele espaço, batendo a cabeça para Cellia Nascimento, Denise Assunção e muitas outras! Já falei delas noutro trabalho do Oficina. (http://marcelobenigno.blogspot.com/2015/11/felicidade-clandestina-misterios.html).

O segundo ato do trabalho é desnecessário, pelo menos como espetáculo. Como pesquisa do coletivo, talvez funcione. O elenco entra cansado em cena lembrando do nosso cansaço também. Até a música colorida perde samba e ritmo. Poderia ser mais enxuto, mais seco, mais caatinga. Falta caatinga na Apoteose de Camila! Numa hora que se diz na encenação claramente de sertão, entra uma atriz sarará desfilando um vestido de calda, esburacado preto,  quase  uma alta costura da  coleção outono-inverno 2022 de Jean-Paul Gaultier ou um modelo do desfile do SPFW desse mês, numa tentativa de representação  contemporânea da seca?! (...) Falta vivencia da seca e sertão ali, falta apoteose sertaneja, falta ali “caititus esquivos”, os “queixadas de canela ruiva” as “emas velocíssimas”, as “seriemas de vozes lamentosas”, as “sericóias vibrantes”, as “suçuaranas”, os “mocós espertos” e ainda os “veados ariscos” e os “novilhos desgarrados”. (CUNHA, 1985, p. 127).

Ai que saudade eu tenho da Bahia! Ai Euclides da Cunha, digo a cidade não o escritor!

“Galga-se uma ondulação qualquer - e ele se desvenda ou se deixa adivinhar, ao longe, no quadro tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem um traço diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas” (CUNHA, 1985, p. 99)

Ao final da estreia a atriz Sylvia Prado fala da difícil missão de Camila sobre a encenação, sem recursos, como elenco numeroso nos oito meses de trabalho etc, etc, etc.

O que não fica claro se o resultado ali é fruto da Escola da Universidade Antropófaga num resultado de vivências ou estudos, ou do Oficina. Esse novo grupo de jovens Cecillers é o novo Oficina agora? Não entendi!

Há além da Universidade Antropófaga outros grupos de estudos e formação de atores espalhados pelo Brasil com intuitos parecidos, como o Galpão Cine Horto do Grupo Galpão em Belo Horizonte, a Terreira da Tribo do Ói Nóis aqui Traveiz,  no Rio Grande do Sul, a Universidade Livre do Teatro Vila Velha em Salvador, as Oficinas do Caçuá de Teatro em Conquista...

Definir os formatos e discursos talvez seria mais proveitoso! Quem é o ator/ atriz ou atuadore que não gostaria de atuar no Teatro Oficina com toda sua estética e recursos? Como o Teatro Oficina pode ser mais acessível como centro de estudos de forma mais organizada e acessível para pessoas, estudantes ou pesquisadores? Como compartilhar mais tanta história e memorias daquele espaço?

Falando em memorias é impossível desassociá-las do Oficina completando seus 65 anos de vida e trajetória. Pisar no solo sagrado do Oficina requer muita responsabilidade, trabalhos intensos, estudos, vivências que talvez só serão percebidos por alguns com muitos calos nas mãos, chão e janelas de estrada, estudos, experiências no corpoartediscurso ou de muita farinha e pirão de mocotó. ( Ops, os paulistanes  e Cecilliers não comem nem farinha nem mocotó, desculpem esse bode véio catingueiro, caipira simplório como descreve o autor carioca inspirador para esta encenação.)

Vale a pena assistir para matar a saudade do Oficina e de Zé Celso, nosso eterno Exu das Artes.

Em Mutação de Apoteose o grande destaque protagonista pulsante é o Teatro Oficina, sem dúvidas!


SERVIÇO:

Mutação de Apoteose

TEMPORADA: 27/05 a 23/07, sexta a domingo.

Na estreia: 27/05 às 21h 28/05 às 19h

Depois, sempre sexta e sábado às 20h; domingo às 19h

Local: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

Endereço: R. Jaceguai, 520 - Bixiga, São Paulo - SP


PS: As fotos aqui postadas são do ensaio aberto publicadas no facebook de Jennifer Glass. Créditos das fotos: Gal Oppido

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

MAS, E DAI?! Bufonews e a Necropolítica – A experiência viva do jogo como dispositivo no processo de criação


MAS, E DAI?!
Bufonews e a Necropolítica – 
A experiência viva do jogo como dispositivo no processo de criação 
( Diário de Bordo- Exposição Poética)



Eu sei que devia ta terminando de ler o texto para o encontro de Dramaturgia, com o convidado, mas precisava falar, falar da experiência que foi o Experimento 1, da Exposição Poética da SP Escola de Teatro.

Eu faço diário de bordo e se você demora muito de escrever, esquece a pulsão do que aconteceu no dia, das sensações daquele momento, mesmo que depois possam ser reinterpretadas, ou reescritas, reestruturadas. Sei que o tema Necropolítica era o mote para direcionar os olhares de todxs, mas pelo o que vi, para um lugar denso, sem saídas, de paralisação. Não, Benigno, você não devia falar isso agora, não vai atrair a atenção do leitor para o texto, não vai criar uma situação, um espelhamento, uma identificação, uma, uma, uma contradição?!

Eu já sei o que está acontecendo por aí, pelo país, na Amazônia, no Nordeste, em Brasília, em São Paulo. Eu sei o que significa a necro-política, mas, e daí?

Não quero ver novamente as imagens agonizantes dos desastres dos últimos tempos ou ver mais um preto na mira de uma arma. Não quero a repetição de reportagens de tanta coisa ruim que aconteceu ou está acontecendo. Mataram Agatha, no Rio, nesse final de semana. Mas, e dai?   É encenação ou realidade? Extra, Extra, Extra!   A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca(...). A informação não é experiência. ”

Acredito que devemos apontar saídas, linhas de fuga para tantas realidades que estamos vivendo, e que não são teatro! A realidade nunca será uma encenação, uma exposição! Nossa tentativa de dessecar o real muitas vezes é fraca e caricaturada, além, de nos colocar pra baixo. Não existe amor em SP?!

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca(...). A informação não é .”

Fiquei muito feliz com o resultado do Núcleo 7- Amarelo, por ter se colocado no desafio do jogo! Era um jogo! Não era ensaiado, acontecia, ali na frente dos olhos da plateia. Não era uma projeção na parede. Parece que os experimentos se contaminaram com uma pseudo modernidade das projeções. Que contemporâneo!!! Mas, e daí? “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca(...).

Escolher um jogo vivo, nos corpos dxs atuadorxs colocou todo o Núcleo em estado de prontidão, em estado de jogo, e funcionou! Foi arriscado, como andar na rua diariamente sem sofrer nenhum tipo de violência ou surpresa, mas funcionou!
Acho que conseguimos atingir com essa experiência instaurada um estado de cooperação entre nós, todxs envolvidxs nesse experimento! Rolou uma sinergia! Ufa! Que bom! Axé! Evoé!

Relacionar com as variadas áreas e cursos da Escola pode ser instigante, mas é um desafio, pois é vida real, é lidar com as pessoas, pensamentos, olho no olho. Isto é experiência e é nesse pulsar que acredito, num teatro e artes vivas, e que  “coloque pra cima” nossa energia vital em alegria, não em tristeza,  ou lamentação.

Conseguimos uma unidade de grupo, o que leva muito tempo de convivência! Devemos continuar nessa energia para potenciar outros encontros alegres e felizes. Encontros alegres como Espinosa tanto fala!

Fiquei pensando nisso, após chegar em casa e ter conseguido raptar o diretor para um evoé rápido com uma cerveja - na ausência de vinho, (eu consegui!) no caminho para o metrô.

Vamos conservar esse estado de jogo positivo, criativo e pulsante.

O monstro está aí, a nos rodar cotidianamente, e temos várias opções:


  •   A de identificar ele e ignora-lo.
  •    A de não identificá-lo e continuar nossa vida/encenação.
  •     A identifica-lo e partir pra cima dele! Bacuralizemo-nos!!!
  •    Outras possibilidades...

Nesses nossos jogos cotidianos cada um de nós sabe os jogos e papéis que ocupa e quais etapas de cada jogo deve chegar!

Lembremos que a “nossa arte” deve apontar caminhos, frestas, linhas de fuga a para transformar a nossa realidade e sair do jogo ou escolher o jogo que queremos ficar.  Mas, e dai?!

Que comecem os jogos!

"Não quero saber mais saber do lirismo que não é libertação." Manuel Bandeira

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca(...). A informação não é experiência. ” Salve Jorge Larrosa Bondía!

Extra, Extra, Extra!!!  
  
MB 23 de setembro de 2019. Esfriou de novo na Meca Sampã. Rascunho de Diário de Bordo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Teatro da Pimenta- Para que serve um dramaturgista?!



Teatro da Pimenta- Para que serve um dramaturgista?!
Penúltimo Diário de Bordo -SP Escola de Teatro-  Segundo Semestre 2019
Processos de “A Risonha e Límpida História da Democracia”  N7



Pimentas são frutinhas coloridas que têm poder para provocar incêndios na boca. Pois há ideias que se assemelham às pimentas: elas podem provocar incêndios nos pensamentos. Nietzsche era um especialista em ideias incendiárias. Um eremita que vivia na floresta, ao ver Zaratustra descer das montanhas para as planícies, percebeu que ele estava a fim de pôr fogo no mundo com as suas ideias. Zaratustra sabia que suas ideias queimavam e que muitas pessoas, ao lê-lo, “pensariam que estavam devorando fogo e queimariam suas bocas”. Mas, para se provocar um incêndio, não é preciso fogo. Basta uma única brasa. Um único pensamento-pimenta...” Rubens Alves

Agora eu posso falar, ou melhor, escrever! No início falaram que o dramaturgista não tinha voz. Parei. Calei. Respirei. O que vou fazer agora? Libras, Marcel Marceau, Luis Louis?

Existem alguns adendos, ou referências, ou notas de roda pé a serem feitos nesse texto para se entender mais sobre o processo criativo e de formação no curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, mas prefiro, agora, ir escrevendo para não perder o fluxo da escrita e das imagens. Mas como é um diário de bordo, minha primeira intenção é primeiro o registro para posteriores aprofundamentos, então, como baiano que sou, o registro é lento, leve, descompromissado, à princípio.  Ingressei na SP Escola de Teatro no segundo semestre de 2019, então, ainda estou conhecendo e engatinhando na pedagogia e metodologia posposta por ela e este é um dos meus diários de bordo.

A função do dramaturgista ainda é considerada um luxo em companhias ou grupos teatrais brasileiros. Fala-se muito mais em "assistente de direção" ou outras nomeações para esta função. Elx é aquelx que  não é x autorx do texto dramático, mas que desempenha uma série de atividades que efetivamente envolvem a dramaturgia. É conhecidx como aquelx que articula relações, levanta material, mas não pode ter voz. O dramaturgista não escreve o texto, quem escreve o texto dramático é o dramaturgo.

A professora convidada, que foi dramaturgista na Alemanha, onde a figura do Dramaturgista surgiu, foi enfática.



Então, o dramaturgista é como uma ekedi, professora?!  Ekedi é o nome dado, de acordo cada nação de candomblé, para um cargo feminino de grande valor: o de “zeladora dos orixás”. A ekedi, na maioria das casas, também é chamada de mãe e exerce a função de dama de honra do orixá regente da casa. É dela a função de zelar, acompanhar, dançar, cuidar das roupas e apetrechos dos orixás da casa. Ela faz de tudo, é a figura feminina que mais trabalha em um terreiro, prepara ebós, arruma quartos e roupas de santo, conhece os rituais, vai ao roncó, cozinha, lava, limpa, serve, mas está atrelada e subordinada à voz do pai ou mãe de santo do terreiro.




O dramatugista é uma ekedi do teatro. Para ser uma ekedi, ou melhor, um dramatugista, não é fácil, pois além de saber tudo que está se passando ao redor,  elx tem que saber a hora em que pode falar. Oxe, mas você não havia dito que o dramatugista não tinha voz e que as ekedis não podiam falar?!

Em terreiros teatrais, comumente, os pais/mães de santos diretores muitas vezes sucumbem à voz das ekedis, dos ogãs, das iaôs. Saber reconhecer hierarquias é bastante importante tanto no teatro como no ilê, saber quem comanda o leme da embarcação, acatando a direção do vento e vendo as rotas é fundamental. No nosso caso, a direção compartilhada do nosso barco, feita por dois diretores, foi bastante generosa, respeitosa, sábia e enriquecedora para o grupo, ekedis, ogãs e abiãs.

A ekedi sabe, o ogã sabe que sem a sua participação o comandante/ pai /mãe de santo não comanda uma embarcação sozinho. Um abiã tem que saber o caminho que tem a percorrer. Perceber isso é ter sabedoria e maturidade. Trabalhar na consciência do grupo, na energia criativa e colaborativa para elevar o espirito coletivo do jogo, do axé, da festa.






Assim como no axé, o teatro precisa de ekedis que cozinhem os saberes para fazer o ritual  potente, brincante, vivo, com sabor e colorido, ainda mais numa metrópole triste, acelerada, corrida, poluída, com cotação da bolsa, ligação de telemarketing, corre-corre, caos. O teatro precisa ter gosto, energia e colorido como o Axé para chegar e se fazer presente na vida das pessoas.

São Paulo é uma Meca e nesse cérebro do país tudo é muito racional, corrido, preto e branco, pesado. Falta Axé em São Paulo, já diria meu amigo babalorixá.




Por isso é necessário um Teatro da pimenta, da paçoca, da uva ou um dramaturgismo dos sabores que dê o seu recado e contribuição, tornando-se, realmente, uma experiência prazerosa, leve e tranquila para quem se religa com ele. É nesse teatro que acredito!  Um teatro popular onde os sabores resgatam memórias, alimentam o corpo e a alma, ativam nossos estados ancestrais, vitais para nos aliviar ou tirar dessa corrida pela sobrevivência ou dos resquícios do consumismo nessa metrópole manchada pelo capitalismo, sem empatia e cor.

Acreditar num teatro do encontro que potencialize uma experiência em arte feliz, pulsante, alegre, produtiva, é ativar o nosso estado brincante, da alegria do erê, do jogo de estar presente, garantindo o frescor e a plenitude de cada experiência.



Começar com o jogo permitiu o N7 experimentar um trabalho coletivo e participativo em sua totalidade onde todos jogavam, (ou seja, todas as linguagens artísticas eram propositoras) indistintamente. Como foi lindo ver a direção de Wander e Arisson abraçar essa ideia e permitir a todxs vivenciar uma experiência de teatro de grupo, não meramente pedagógica.  Falo isso, pois sou cria do teatro de grupo na Bahia e muitas vezes os processos de cunho pedagógico não refletem a realidade da vida e do mercado de trabalho na nossa área.

Na SP Escola de Teatro todos os criadores, das variadas linguagens, formam um Núcleo onde cada área pesquisa em torno de um tema para culminar num resultado cênico, coletivamente. Isso é maravilhoso mas é sempre um desafio conseguir unir  todas as linguagens num único objetivo, numa mesma energia de grupo, pois cada linguagem quer mostrar o seu trabalho e pesquisa. Então já deu pra imaginar, né?!
O tema desse ano foi NECROPOLÍTICA. São três momentos distintos até o produto final.



Começamos com o Jogo! Nossa primeira abertura foi um jogo de bufões transformando notícias reais em fake news, ao vivo, sem ensaio, só treinamento. 









Assumimos o risco do jogo e nos jogamos, literalmente, na força desses bufões. Foi massa  o nosso "BufoNews". Muita gente achou que havíamos ensaiando tudo, quando estávamos jogando com as improvisações e este dramaturgista que vos escreve (agora e aqui eu posso, rs) escolhia as notícias ao vivo a serem jogadas aos bufões que as transformavam e criavam na frente do público! Uau! De celular na mão tudo pode virar notícia, até eleger um Presidente da República desses!











No jogo do aqui e agora as fakes news só terão importância se acreditamos nelas. Em que teatro em acredito?  A quem o meu teatro atende? Para quem eu jogo?! Para quê?!

Enquanto brincamos de ser Zeus ou Deus, mais uma pessoa é afetada diretamente pela necropolitica na porta da sede do Brás, na praça Roosevelt, nas ruas da capital paulista.
“São Paulo tem mais pessoas morando na rua que população de 457 cidades paulistas”, diz a reportagem.Em quatro anos, a capital mais que duplicou número de pessoas em condição de rua. Estima-se que sejam cerca de 33.700 mil desabrigados em São Paulo.”  Não é fake news! Não é teatro, é vida real! Necropolítica real.



Enquanto o nosso teatro não for mais potente e forte para tentar resolver ou apontar soluções, saídas, linhas de fuga ou sei lá o que, sucumbiremos nas nossas próprias bolhas, sabiamente colocado no texto forte de Elenice Zerneri.

Onde está a Necropolítica? Foi a questão que mais se ouvia nos ensaios abertos dos experimentos, pois a maioria dos núcleos focou na consequência da Necropolítica e não na sua causa. Isso foi nítido na Primeira “Exposição Poética” e escrevi no meu diário do bordo sobre. Vou postar no blog também![https://marcelobenigno.blogspot.com/2020/01/mas-e-dai-bufonews-e-necropolitica.html]


No final do processo, o N7 encerrou as apresentações da Mostra da Escola numa sessão intensa na plenitude de uma plateia participativa.
















Que o reflexo visto do espelho da cena final seja mais forte que a parábola que ela sinaliza e jogue no jogo da vida real todxs xs portadorxs dos reflexos refletidos, onde além de brincar e se divertir, interfiram na ordem das coisas, cenas, festa e da vida!

Um teatro da pimenta que não só dá cor e sabor mas que seja inesquecível e necessário como numa oferenda a Exú, na qual esse ingrediente picante sempre está presente para movimentar e esquentar a vida. Evoé, Dionísio! Laroyê Exú!


Agradecimento especial a Marici Salomão, Daniel Veiga e Silvia Gomez, parceirxs nessa labuta e travessia que com generosidade, sabedoria e muita  finesse (é bom que se diga!) acolheram a minha baianidade de Chicó com a desconfiança de Oxóssi nessa primeira etapa. E a minha turma do “Drama com amor”, sigamos açucarados e apimentados, firmes e fortes nos afetos e sabores!



Axé, Laroyê, Evoé!
mb

PS: Selecionar fotos para colocar nessa publicação foi mais difícil que digitar o texto, rs, foram muitaaaas fotos e filmagens desse trabalho, preferi colocar as fotos do processo, tiradas por mim e pelo grupo, que representam nosso encontro feliz!





“Não gosto da vida em banho-maria, gosto de fogo, pimenta, alho, ervas. Por um triz não sou uma bruxa. ” Martha Medeiros
“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Ditado Popular


PIMENTA — O FRUTO E FOLHA DE EXU
A pimenta simboliza descendência e abundância. É cheia de sementes e “explode” quando está suficientemente madura, espalhando fecundidade e criatividade. As características morfológicas da pimenta, tipo dedo-de-moça, da costa ou malagueta, cuja cápsula – fruto – contém inúmeras sementes expulsas quando ocorre a maturação, são consideradas quentes – fogo – e elemento (fruto ou folha) de Exu. Como todos os pimentos, é possuidora de um axé – força fluídica – capaz de reforçar o poder da palavra quando algumas de suas sementes são mastigadas liturgicamente na ponta da língua. Assim, nas invocações e evocações, as pimentas são indicadas para potencializar o verbo dos oficiantes para ligá-los ao Senhor dos Caminhos – Exu —, o que leva e traz, abre e fecha, fazendo com que os cânticos tenham “força” etéreo-astral. As folhas das pimentas, com maior ou menor concentração de princípios ativos, podem ser preparadas adequadamente, dentro do fundamento e tradição de manejo adequado dos terreiros, para uso litúrgico em pessoas astênicas (sentimentos mórbidos e depressivos com enfraquecimento da vontade), comprovadamente magiadas, auxiliando-as positivamente para o restabelecimento da saúde psíquica e física.
A pimenta é dispersora de fluídos pesados e negativos por ser um fluído quente e desagregador. Pode ser usada para a proteção de ambientes, plantadas em jardins ou em vasos, próximo a janelas e portas de entradas. Ao mesmo tempo, também dispersa formas de pensamentos gerados por inveja e ciúmes, o popular “olho grande”.
- ENCANTOS DE UMBANDA- Peixoto, Norberto. Editora: LEGIAO PUBLICAÇOES


“Essas pimentas; acrescentai-lhes asas e serão libélulas...” Basho







             





FICHA TÉCNICA N7

"A risonha e límpida história da democracia" conta, através de imagens e fragmentos narrativos, os principais acontecimentos políticos ocorridos no Brasil (ou na Grécia), de 2013 a 2019 (ou século V a.C.). É possível que algo que nunca aconteceu esteja em perigo? Sem a pretensão de realizar uma análise ou um manifesto, trabalha-se com a ideia de colagem do sinistro. Do indizível. Do que, retirado o jogo da democracia liberal, revela-se como a perpetuação da guerra contra os debaixo, disfarçada de política. Os debaixo que são, sem saber, o alicerce de todo o sistema.

Atuadores Humor- Amanda Rodovalho, Davyd Rafael, Mayra Hartz, Olivia Bassini, Vitor Ugo

Direção- Arisson Fabrício e Wander B.

Dramaturgia- Elenice Zerneri

Dramaturgista- Marcelo Benigno

Cenografia e Figurino- Ana Catarina, Mariana Cortez, Yuri Godoy

Sonoplastia- Fábio Martins e Natasha Hammel

Iluminação- Angel Taize e Julia Orlando

Técnicas de Palco- Thais Costa e Vitor Tatsumi.

                                                            
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