sábado, 12 de dezembro de 2015

EM FUSÃO: DERRETENDO COMO O GELO E ENSOPADO DE GOTEIRAS E CHUVA- "Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação" da Cia Livre- teatro de verdade na plenitude da experiência! Para todxs que se TRANS formam!



Nesta semana tive o prazer de assistir ao espetáculo “Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação” da Cia Livre, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em Sampa. A Oswald, como um eterno caso de amor antigo, insiste em marcar meus momentos, seja na audição ou temporadas do premiado e marcante "ASSASSINATO DO ANÃO DO CARALHO GRANDE", de Plínio Marcos, dirigido pelo querido Marco Antônio Rodrigues, que me retornou a SP em 1997/1998, rebatizando-me no teatro real e das possibilidades na metrópole, ou em cursos e oficinas que fiz por lá, além de ser palco de uma outra audição mais recente para ingressar na Fábrica de Cultura, como artista educador de teatro. Muitas memórias vividas nestas salas e corredores são ainda pulsantes em meus extratos, assim como o espetáculo que acabei de ver!

Dirigido por Cibele Forjaz e protagonizado por Lúcia Romano e Edgar Castro, Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação é muito mais do que se propõe! A peça está em cartaz em São Paulo desde o início desse ano, comemorando os 15 anos da Cia Livre, com sua décima montagem! Estreou em fevereiro no Sesc Belenzinho, seguindo para uma temporada no TUSP, de março a abril, arrancando ótimas críticas e comentários!

Poderia começar a falar sobre o texto, a encenação, os atores, pois há muito tempo não via um trabalho de teatro, essencialmente potente e instigante: teatro como ele é! Assisti recentemente Mistérios Gozosos do Teatro Oficina, que é um Desbunde aos sentidos e acrescento Maria que virou Jonas nessas sensações também, por várias razões.

A escolha da temática que circula em torno de identidades, transexualidade, diversidade, além de forte, é urgente para a discussão em arte/vida! Por aí, a peça já ganharia notoriedade, mas o conjunto da obra a faz mais que uma obra passageira ou panfletária!


O texto escrito por Cássio Pires, se inspira na história do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) no ensaio Da Força da Imaginação, onde Marie vira Germain! Sim, é isto mesmo que você leu! Uma mulher ao se esforçar em saltar um buraco, desloca de seu interior um pênis escondido, ai começam as TRANS forma AÇÕES! Não preciso contextualizar mais para termos uma sinopse/conflito bastante instigante e atual! E não fica só nisso! A cenografia de Márcio Medina é um destaque à parte, além das músicas de Lincoln Antônio (sim, os atores cantam e dão um show, com um músico gato e talentoso, ao vivo!) e da preparação vocal para o canto, feita nada menos, pela diva cigarra Ná Ozzetti ( que luxo!!). Tudo isso não seria nada sem a potência TRAN formaDORa dos atuadorxs, (é bom que se diga!!) que agrega a obra uma qualidade pouco vista no teatro paulistano, recentemente!

Vejo em São Paulo muita gente que faz teatro! Teatro Musical Comercial, teatro de grupo, performance que se diz teatro, grupo novos, cursos novos, atores jovens que buscam sobreviver fazendo “arte” e brigam diariamente, por cada lei de incentivo ou edital; grupos antigos que exigem exclusividade e atenção... No meio de tantos solilóquios e afetações não sucumbir ao ego e aos guetos e conseguir realizar um trabalho bem feito e emaranhado no seu discurso/corpo/arte é realmente, uma proeza para poucxs!

Em cena essxs guerreirxs cênicxs conseguem, naquela sala TRANSnformada que ensaiei por quase um ano, “o Anão”, num corre-corre de 30 atuadorxs loucxs; fazer a mágica do bom teatro acontecer! Naqueles corpos o discurso se faz presente! Visceralidade, potência, organicidade! A presença de ambxs é forte e num espaço pequeno, ficou ampliada pela atuação compartilhada com a plateia, a cada olhar de perto, em arena, (salve o teatro popular e de rua!) muito e necessariamente íntimo, como as confissões ou o meta teatro ali acontecendo. E quantas imagens bonitas nos são presenteadas! Atenção para as sequências corporais e o trabalho de corpo coordenado por Lu Favoreto, que nos dá sequências lindas, e certamente um outro espetáculo à parte, ali presente!

Tudo casa perfeitamente bem, além da analogia de sensações que os atores criadores e a direção quiseram causar aos expectadores com a escolha dos materiais usados em cena, desde a tabela de cor a variados formatos reincidentes, às temperaturas, fusões e sensações que nos causam. “Fusão (física), um processo físico de transformação do estado da matéria.” Filhos da mãe!!!

Nesse jogo que está mais para Judith Buter que para Viola Spolin, a plateia ativa/passiva ou versátil escolhe quem faz quem, a cada dia de encenação. Assistimos neste dia a Neo Maria de Lúcia Romano e Jonas Couto de Edgar Castro darem vida, a ela e ele, ou seria o contrário?!

Como é bom para mim que sou também, meu discurso arte/vida no corpo, carregando todas as cotas quase como um condensado de bose-einstein, diariamente, ter o privilégio de ver uma obra tão requintada! Ora, o teatro, a dança, as artes da cena, do visual e do corpo, vivem de signos e imagens, ter esse cuidado ao presentear ao público, é uma delícia de se comer e salivar, desde o cenário aos atores...

Olha vocês pensando em sacanagem, opaió?! Tá pensando que travesti é bagunça?! Fora o bordão (des) contextualizado, infame e/ou oportuno, achar que a sexualidade e diferenças só giram em torno das/dos travestis de ruas, estereotipamente representados, há séculos, está muito enganadx! O universo da sexualidade e identidade de gênero está constantemente em ebulição, como o texto da peça que é navalhante, urgente e se faz necessário como discurso ou educação para todxs, professores, atores, médicos, cristãos, ateus, héteros, gays, numa temática que não deveria ser velada, tampouco marginalizada, mas de urgente discussão!

Impossível não se ver ali, recortadx naquele texto/discurso em situações reais e possíveis num mundo louco, diverso, cruel e desigual.

Lembrei de novo, da querida Claudia Wonder, pela musicalidade, força da peça e pela referência. Aos mais desinformadxs e para contextualizar este papo/texto/diverso, faz-se necessário saber um tiquim sobre Claudia Wonder. Vejam o documentário "Meu Amigo Claudia" de Dácio Pinheiro, 2013, [https://www.youtube.com/watch?v=159I5cQkbx4] onde a sipnose diz: “O longa conta a história de Cláudia Wonder, uma eclética travesti que trabalhou como atriz, cantora e performer nos anos 80, tendo feito muito barulho no cenário underground de São Paulo. Ela também ficou marcada pelo importante trabalho como ativista na luta pelos direitos homoafetivos.”

Antes de me derreter e modificar meu corpo e essência, e será que a essência muda?! indico a todxs  amigxs esta obra prima da dramaturgia atual! As duas horas sentado numa cadeira não tão confortável (queria um almofada forrada de plástico bolha ou em formatos e imagens sugestivas para me salvar) valeram a pena pelo (des) conforto ou júbilo que a peça pode causar. Como é bom perceber que ainda existem artistas que pensam na mensagem que levam seus cavalos, além dos prêmios e editais que ganham! Maria que virou Jonas é a fusão que precisamos para TRAns formar uma sociedade preconceituosa e limitada, que ainda aprende a lidar com o diferente, em pleno século XXI! A eterna diva Claúdia Wonder certamente estaria aplaudindo, de pé, este trabalho, assim como eu o faço agora, veementemente, em fusão! Bravo! Evoé! Por um teatro de verdade e TRANS forma AÇÕES!

“Não faço teatro para o povo, mas o faço em favor do povo. Faço teatro para incomodar os que estão sossegados. Só para isso faço teatro. ”  Plínio Marcos.



SERVIÇO
Corram Lolas, Corram!
A peça fica em cartaz até 17 de dezembro na Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3222-2662
Terça (15), quarta (16) e quinta (17), as 20h.
Ingressos distribuídos uma hora antes.  E é Grátis! Dá pra acreditar?!

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia | Cássio Pires Direção | Cibele Forjaz Atores-criadores | Edgar Castro e Lúcia Romano Direção de Movimento | Lu Favoreto Cenografia | Márcio Medina Figurinos | Fabio Namatame Luz | Rafael Souza Lopes Operação de Luz | Rafael Souza Lopes e Rodrigo Campos Direção Musical | Lincoln Antonio Sonoplastia | Pepê Mata Machado Treinamento Vocal para Canto | Ná Ozzetti Produção | Cia. Livre e Centro de Empreendimentos Artísticos Barca.
Duração: 120 minutos .  Recomendação: 16 anos. 

As fotos usadas nesta postagem são de divulgação do espetáculo e estão na página; [ https://www.facebook.com/espaco.casa.livre/?fref=ts]

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

FELICIDADE CLANDESTINA: MISTÉRIOS GOZOSOS DO OFICINA É PURA POESIA AOS SENTIDOS E PRAZERES! BORA GOZAR?!

FELICIDADE CLANDESTINA: MISTÉRIOS GOZOSOS DO OFICINA É PURA POESIA AOS SENTIDOS E PRAZERES! BORA GOZAR?!

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me. 
E por que haverias de querer… (Hilda Hilst)
Estreou semana passada, dia 20 de Novembro, no Dia da Consciência Negra, o espetáculo Mistérios Gozosos, do Teatro Oficina. Zé Celso revisita Oswald e Mistérios no século XXI. Mistérios foi montado pelo Oficina em 1995, e hoje, em meio a tanta caretice nossa de cada dia, vem como um Desbunde de orgasmos múltiplos na nossa cara do sol de uma pseudoliberdade para tudo!

Não, não quero fazer um texto descritivo ou histórico sobre a relevância desta obra e nem do trabalho único do Oficina, ou de todos os atravessamentos que nos compõe, implicados nesta obra; quero falar das sensações vivenciadas nesse puteiro sagrado das artes!


Como analisar uma trepada? Uns avaliam o tempo que ela dura, outros as preliminares bem feitas, alguns, como eu, admiram o ritual da conquista e a preparação para o ato, já os mais ousados, medem o tamanho dos órgãos, gemidos e quantidade de gritos, sussurros e fluidos expelidos... Junta tudo isso, amplie e poderá chegar um pouco perto das sensações que Mistérios oferece ao público/cliente, por alguns ducados, em mais um dia de função.

O Oficina abre as pernas e nos oferece imagens e sensações fortes, a começar pela cena prólogo de abertura totalmente sensorial, literalmente na lama. Os atores tiram seus pudores e roupas e se jogam nela, viscosa, pegajosa, viva, o que é um preludio do que vem por aí...

Entram elas, as meninas! A entrada das santas putas, numa saudação quase sabática a energia vital feminina, ora deusa pagã, ora Padilha, num círculo de energia para um novo dia é de uma plástica e força impressionantes, como as próprias putas, que são as donas da cena e do espetáculo, orgiásticamente! Naquele Banquete e cardápio há putas para todos os gostos, branquinha, negra, trans, puta brava, puta romântica: gente como a gente!

Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos
sem medida
Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta
      Puta
      Puta
Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
      Grito marinho
      a escorrer nas algas
      do meu ventre
      Puta
      Puta.
Grito erótico (Manuela Amaral)

Nas atuações gente nova desfilando na pista! Rostos bonitos, corpos em dia! Neste mercado do gozo, os olhos se vão dessa vez para Glauber Amaral, como seu Olavo, que está tão intenso e pleno em cena como um quadro de Deus e o Diabo na terra do Sol, de outro Glauber arretado! O Protagonista masculino é dono do espetáculo!



Já as putas, Puta que pariu!!! Um grupo distinto e diverso! Vale a pena apreciar as relações em que estão envolvidas e a comunidade que criam. Quem bica quem, quem gosta de quem, quem cuida de quem, é um espetáculo à parte observar a construção das atrizes nos seus subtextos gerando cenas e situações. Destaque para a puta mágica de Joana Medeiros que mete medo, quase uma dona do Bordel. Quando eu crescer quero atingir a plenitude dessa bacante que nos oferece, a cada construção, o quanto ela, puta da arte teatral, se transmuta! Vale cada nota colocada na calcinha! Bravo! Laroyê! 



Além de Joana, Sylvia Prado depois de uma primeira e forte construção de Neusa Sueli, volta ao puteiro como Lurdz, puta mais "requintada", paramentada, fina e mascarada. Como um corpo daquele pode ser tão lindo e desgastado como o de Neusa Sueli? Sylvia Prado é Sylvia Prado, meu amorrrr!! Não resisti ao trocadilho e acho que minha Puta-sem-Nome está tomando a minha mão nesta escrita punheta da lembrança! Lurdz é esperta, assim como a puta Rosa, Rosa puta de Danielle Rosa (que visual e cabelos são aqueles, menina, uau!) a corifeia Rosa das putas, consegue ir se desmontando ao longo da peça, desgastar de toda sua beleza conquistense e nos mostrar uma construção de Mangue, plena e viva na derrocada do batente! Lindo! Me lembrou Os Miseráveis, Perfume, naquelas relações desgastes e reais. Puta Dani! Laroyê! Só podia ser da Bahia, meu rei, e para você, benigno que sou, o poema oportuno que se segue:

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
Entrevista (Adélia Prado)


Sim, continuando com o gozo, quer dizer a fruição, não posso deixar de falar do cuidado da produção, do programa à entrada para a peça, que você só descobrirá ao ir! Ainda no elenco a integridade musicalizada de Letícia Coura e a força capitulesca de Camila Mota seduzem a plateia fascinada, que dá boas vindas a Wallace Ruy numa construção permeada de verossimilhança e traquejo para quem estreia no terreiro do Oficina! A revelação de sua personagem vem mais adiante e lá se entende porque um ator/atriz, bacante ou artista se faz!! Um texto faca, potente dito por alguém transmutado de poder e beleza que vive e passa pela experiência no corpo e na vida (o que sempre digo e defendo). Zé Celso é um bruxo e sabe o que faz ao escolher seu elenco! Toque de Midas! Gozei irradiando todo corpo! Saudade de Cláudia Wonder batizada também nesse terreiro. A vida não é uma encenação! Temos que fugir dos códigos, tarjas e definições que nos aprisionam!

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P’ra que do choque no fim te não caia.
Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue 
Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.
Da sedução dos anjos (Bertolt Brecht)

Agora pensar que a peça só fala de putaria, michê, sexo está muito enganadx!
A trilha é uma obra prima de José Celso Martinez Corrêa e José Miguel Wisnik! Valei-me Nossa Senhora! Quanta lindeza! É muita música poesia o tempo todo! Como elxs conseguem?! Numa das cenas mais emblemáticas, num duo que arrepia o cabelo daquilo que você pensou, puxado por Denise Assunção e Céllia Nascimento, duas divas negras potentes e inspiradas que agregam uma qualidade soul excepcional a encenação, faz qualquer cristão ou homofóbico mais duro, cair em lágrimas! Catarse e gozo total! Ali, todxs tiramos as máscaras e viramos uma poesia humana, gente de verdade, carne, osso, vísceras, sexo, alma! Impossível não buscar explicação em suas conexões com Foucault, Marquês de Sade, Hilda Hilst, Jesus...  mas já adianto: nem Freud explica!

Na lama final encaramos todas as conexões com a realidade ali, frente aquela obra de arte! 
Tentar definir Mistérios é o mesmo que tentar definir o sexo, a vida! Cada um(x) vê de sua forma, com suas preferencias e formação. Temos que passar pela experiência, sem o preconceito ampliado do nosso século careta, heteronormativo, judaico cristão, machista, misógino, capitalista.

Numa sociedade em crise onde a lama da corrupção ou a lama marrom invadem a vida, temos que revitalizar os rituais possíveis da nossa rotina e cotidiano. Na era dos aplicativos modernos em celulares, para o sexo casual e fácil, devemos nos alimentar daquilo que religamos e acreditamos. Alimentar a alma, não só o corpo! Sexo sagrado e puto! Tem como separar?! Como a poesia de Oswald eu quero é gozar de plenitude e arte, lembrando que todxs buscamos o prazer na vida, seja no sexo, na arte, no casamento, na comida... Onde você busca seu prazer irrevelável? “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.” Salve Nelson Rodrigues! Tá vendo como todxs somos iguais as putas ali do palco?


Então venha se deliciar dessa experiência catártica e ver aqueles atores e atrizes em cena, pois só elxs são capazes de tirar as nossas máscaras para esse deleite gozoso! Mostrem seus Mistérios, seu jogo de cintura, mostra a sua cara! Tirem na soleira de entrada todas as amarras! Coloquem a pulseirinha da balada ou da promessa religiosa e vivenciem plenamente! O cardápio está aberto! A arte é gozosa, não limitadora! Liberte-se!

Espero gozar mais uma vez com os misteriosos desta arena eletrônica, vivenciando outra viagem, pois como todo baiano, o nosso prazer é intenso, sem frescuras, natural e necessário, como a arte / vida! Que venham outras estreias diárias, no Oficina nada é igual! Longa vida aos Mistérios! Vamos gozar?! Gozemo-nus! Amém! Evoé! Laroyê!

Não basta um grande amor
            para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
            que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
            – quem toma uma por outra
               confunde e mente.
Arte-final (Affonso Romano de Sant’Anna)


Massumi, Danielle Rosa, eu e Alora na estreia gozosa!
Várias gerações do teatro conquistense e baiano perpassadas por mim. Evoé!!

As fotos que ilustram esta postagem, exceto a última,  são da sempre inspirada Jennifer Glaas.

SERVIÇO:
TEMPORADA:
Mistérios Gozósos fica em cartaz no Teatro Oficina de 20 de novembro a 20 de dezembro de 2015, sempre às sextas (21h), sábados (21h) e domingos (19h); sessões extras nos dias 23/12 (às 14h30), 25/12 (Natal, às 21h) e 31/12 (Reveillon, às 21h). 
Em 2016: De 02 a 25 de janeiro, com sessões somente aos sábados (21h) e domingos (19h); sessões extras nos dias 11/01 (segunda, às 21h, no aniversário de Oswald de Andrade) e no dia 25/01 (segunda, às 19h, no aniversário de SP).

FICHA TéCNICA MISTéRIOS GOZóSOS 2015


Céu d´Astros Mistérios Gozósos
Dramaturgia a partir de O santeiro do Mangue, de Oswald de Andrade, numa coprodução do Teat®o Oficina Uzyna Uzona y da Universidade Antropófaga, com patrocínio da Petrobras.
Dramaturgia y direção: José Celso Martinez Corrêa
Conselheira poeta: Catherine Hirsch
Direção musical: Felipe Botelho
Trilha sonora original: José Celso Martinez Corrêa, José Miguel Wisnik y ala de compositores da Cia Teat®o Oficina Uzyna Uzona
Atuadores Cia Teat®o Oficina Uzyna Uzona y Universidade Antropófaga:
Ayla Alencar – Puta do mangue
Camila Mota – Deuzólinda
Céllia Nascimento – Puta Celeste Pomba Gira
Clarisse Johansson – Eduléia menina, Puta Mestra Sylvia la Turquia
Danielle Rosa – Rosa, polaca cor de merda cheirosa do mangue
Denise Assunção – Lulu Vapor
Felipe Velozo – São Roque, Primeira testemunha, Freguês, Bancada evangélica
Glauber Amaral – Seu Olavo
Igor Phelipe – Nossa Senhora Aparecida, Segunda testemunha, Autoridade, Anjo, Freguês, Bandaca evangélica, Agrimensor
Joana Medeiros – Maria Mágica, Madame Bovary
Leon Oliveira – Freguês do ônibus do mangue, Menino deus, Criancinha, Criancinha mendiga
Letícia Coura – Sara a Mulher de Jerusalém, Puta Sarah Juliette, Anjo do Corcovado
Lucas Andrade – Guia de Boné, Maroca a Louca
Lucas Rangel – Motorista que vai pro Mangue, São Expedito, Policial, Motorista segurança, Arcanjo
Luiz Felipe Lucas – Santo Onofre, Dandi engomado, Navá, Lord Bowie Byron
Madalena Bernardes – Zulmira, Mulher de Jerusalém
Marcelo Drummond – Jesus das Comidas
Mariana de Moraes – Eduléia
Roderick Himeros – Anjo Serafim, São Sebastião
Sergio Siviero – São Francisco, Comendador do mangue
Sylvia Prado – Lurdz, a Paulista
Tony Reis – Michê Macho Sarado do Puteiro do Mangue, Santo Antônio
Vera Barreto Leite – Madame La Garde, Etherna Puta Matriz
Wallace Ruy – Puta Leona e Bolsacaro Infeliciana da Unha
Zé Celso – Poeta da Margem
Banda Oficina:
Carina Iglecias (percussão)
Felipe Botelho (direção musical, baixo e sintetizador)
Gustavo Lemos (teclado, eletrônicos, espaço sonoro)
Ito Alves (percussão)
Sebastián Díaz Canto (guitarra)
Corografia: Daniel Kairoz
Arquitetura Cênica: Carila Matzenbacher y Marília Gallmeister
Equipe criação arquitetura cênica Universidade antropófaga:Clarissa Morgenroth y Ricardo Ambus
Objetos cênicos: Ricardo Costa (São Jorge, adereço agrimensor y adereço corcovado)
Cenotecnia y maquinaria: José Dahora
Direção de Cena: Otto Barros
Contrarregra: Lucas Cruz
Figurinos y adereços: Gabriela Campos
Equipe criação figurinos y adereços Universidade Antropófaga:Camila Valones, Fernanda Taddei , Junior Santana y Marcela Lupiano
Modelistas: Enrique Casas y Tandara Hoffmann
Costureiros: Juan Arias y Rolando L. Chuyma Pachuri
Camareira: Cida Melo
Visagismo: Denise Borro
Maquiagem: Elaine Ferreira da Silva
Iluminação y desenho de luz: Luana Della Crist
Assistente de iluminação y dramaturgia de luz: Pedro Felizes
Operador de foco móvel y dramaturgia de luz: Danilo Oliver
Consultoria de luz y montagem: Dede Ferreira
Cinema ao vivo:
Igor Marotti (diretor de fotografia, câmera)
Pedro Salim (corte de mesa, video mapping)
Ayume Oliveira (câmera)
Tradução: Lestranj y Maria Bitarello
Comunicação: Acauã Sol, Beto Mettig, Camila Mota y Igor Marotti
Comunicação Universidade Antropófaga: Brenda Amaral, Cafira Zoé, Juliana Pithon, Lestranj y Maria Bitarello
Assessoria de imprensa: Beto Mettig
Estrategistas do projeto Oswaldianas – Teato na cidade seca sobre rios: Anderson Puchetti, Camila Mota, Carila Matzenbacher, Letícia Coura, Marília Gallmeister, Marcelo Drummond, Roderick Himeros y Sylvia Prado
Fotografia: Jennifer Glass
Imagens, ilustrações: Igor Marotti (capa) y Lestranj
Som: Anders Rinaldi
Microfonista: Felipe Gatti
Preparação vocal: Letícia Coura y Madalena Bernardes
Yoga: João Carvalho
Diretor de produção: Anderson Puchetti
Assistente de produção: Ederson Barroso
Arquivo: Thaís Sandri

Administração: Carlos Domingues

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

SOLIDÃO, PURPURINA E CACHÊ - 13 anos depois!!


Esta semana vi uma postagem da querida Rainha Loulou sobre a noite de Salvador. Em tempos de Parada, "Talento Marujo", visita da filósofa norte-americana Judith Butter em terras soteropolitanas e brasileiras, "midialização" na internet, redes sociais, exposições e falações sobre o tema, entre outros, me lembrei de um texto que escrevi em 2002. Até editei-o para mandar a G Magazine do qual era colaborador. Depois da escrita e da sua fruição tive algumas constatações e eis aqui a primeira:

Não sou uma drag queen! Sou um ator que faço e vivo papeis, inclusive femininos, andróginos, masculinos, assexuados... e algumas drags de vez em quando. Esta arte não é fácil! Nem todo ator formado em academia ou cursos especializados é capaz de emprestar seu cavalo para uma drag ou personagem feminin
Antes e Depois de usar Boticário. rs.
Por isso, respeito, admiro e tiro o chapéu para os profissionais da área. 
Relendo o texto antigo,( minha geração já é considerada antiga por esta,rs), tive também saudade de Salvador dos anos 2000, da sua noite e de tantos profissionais e artistas performativos e transformistas daquela época. 

Minha Mortícia criada para uma Festa à Fantasia e virou
Personagem de Repertório de Trabalho, até hoje!
Hoje ficou fácil (por inúmeros fatores e razões) fazer drag ou tentar querer ser a nova sensação fechativa do momento... Ser drag para alguns é só por um carão, bater cabelo com a música do momento, usar uns looks e makes descolados e só. Gosto mesmo é da velha guarda, daqueles que ralaram muito e construíram o chão para esta garotada "Ru Paul's Drag Race" se espelhar! Gosto dos artistas timbrados pela estrada e noites de janela, do seu discurso e engajamento com sua arte, classe e comunidade. Amo o sentimento, a entrega e irmandade, ainda expressados, que na classe artística há muito se perdeu...

Madame Bovary, outro personagem que me segue como Teacher in Role!
Na Foto, em divulgação no campus de Conquista, do Grupo de Teatro da UESB, com alguns participantes em 1999.
Acho que uma pesquisa sobre esses artistas daria uma importante homenagem para tantos que passaram e brilharam os palcos, bares e ruas de Salvador e um registro histórico oportuno! Adoraria ver um painel, daquele icônico que fica no Âncora do Marujo, com a imagem e história daqueles que passaram por lá e introduziram e abriram caminhos para tantos.

"A Professora", quase um alter ego, em mais uma das suas
divertidas Formações, Capacitações e Aulas para Professores.

" A Professora" ( ao centro),  nas suas Capacitações e Oficinas para Educadores.
O que acha Rubem Damasceno junto com Fernando- do Âncora do Marujo e com a ajuda de tantos veteranos postar no Fabu Lous e no Dois Terços algo similar que ilustre esta memória?! É trabalho e pesquisa para uma pós da vida real!

Lucineide, Jussicreide Concebida Sem Pecado Original Gonçalves Santos
 em evento sobre a Diversidade. Brinca com ela, não!
Enquanto a nostalgia domingueira não passa, posto o texto de 2002 e sinto a mesma sensação, ainda!

Bom domingo a todos(as)!! E hoje tem show?! Tem sim, senhor(a)!!

Madame Bovary em Capacitação para Educadores de Arte- 2014.

PS: Ilustrei esta postagem com algumas intervenções minhas na área. Não reparem na qualidade das fotos e nem nas abordagens, pois como sou das antigas, não tínhamos a facilidade que temos hoje, mas vale pelo registro e memória.
                                                                  

SOLIDÃO, PURPURINA E CACHÊ- 
Uma escapadinha na noite gay de Salvador

Mais um final de semana em Salvador. Poderia está mais animado e eufórico, afinal estamos na Bahia, meu rei, a cidade da alegria! Só que as circunstâncias e opções para o lazer soteropolitano tornam-se cada vez mais previsíveis e limitadas.

Se você gosta de ficar em casa, vendo vídeos, estudando, lendo um livro ou se prefere fazer um programa cultural, não faltam opções, porém, se você quer cair na noite para extravasar, as opções tornam-se claramente óbvias.

Você pode ir às boates conhecidas, (com seus assíduos frequentadores e seus tipos marcantes) ou se preferir, ir para alguns poucos bares coloridos da cidade, ou então, para a velha Carlos Gomes, onde “tudo é permitido”. Só que poucos admitem conhecê-la e/ou frequenta-la.

Entro no bar “Âncora do Marujo” situado na Carlos Gomes, e que mantêm uma difícil e plausível missão: a de ainda incentivar shows de atores transformistas, drags e travestis, que alegram as noites com suas performances inusitadas. Entretanto, o que é mais inusitado são os cachês que estes artistas recebem, que certamente, não pagam a produção dos seus trabalhos tampouco, o talento de cada um. Imagine toda aquela produção, as roupas, sapatos, acessórios e bijuterias que caracterizam as personagens glamourosas?!  

Como ator, sei que é difícil fazer um show drag, com dublagem, irreverência e humor. Leva-se tempo, ensaios, pesquisa, pois o público, além de exigente, é atento a qualquer deslize sendo este, motivo para fazer uma grande e gostosa chorria. Às vezes, a interferência do público, com estes comentários, soa agressiva e atrapalha, não só o artista, mas também, o público.

Continuo no bar e vejo muita gente bonita e alegre, conversando, namorando, tornando aquele espaço transcendental e efêmero. A música que toca sugere um clima romântico envolvido no mundo de divas famosas, chiques e neuróticas. A imagem feminina é cultuada, satirizada e até mesmo, comicamente representada, não deixando para trás, o padrão americanizado da diva pop star.

Tomo mais uma cerveja. Continuo a conversar com meus amigos sobre a solidão em Salvador. 

Na mesa ao lado, um trio de amigos também comenta sobre a dificuldade de se encontrar pessoas para namorar, para assumir um compromisso mais sério quando em qualquer esquina, encontra-se o tesão e o sexo fácil, confirmando mais um estereótipo baiano. Onde estão os compromissos duradouros, que vão além de uma única noite de prazer? Aliás, (e infelizmente) o gay cada vez mais se deixa marcar pelo estereotipo sexual puramente carnal e fugas.

O show acaba. O ator transformista convida o público para prestigiá-lo logo mais, na boate próxima.

Minutos depois, ainda com restos de maquiagem no rosto, deixa o camarim carregando intermináveis e gigantes mochilas. Seu olhar revela um cansaço nostálgico de ainda um trabalho por vir. Sua imagem, seguindo no asfalto, representa também, os anseios de uma classe que continua acreditando no belo, nas possibilidades e no show, e este, como a vida, não pode parar, apesar dos cachês, das condições de trabalho e da solidão, típica dos que querem compartilhar experiências recíprocas que constroem histórias transcendentais e legítimas como esta que acabo de narrar.

Salvador- BA. Escrito em meados de 2002.
Marcelo Benigno é ator, professor e diretor teatral.  


                                                                        

terça-feira, 28 de abril de 2015

A ARTE DO TEATRO (E DO CINEMA) É DO ATOR, PRONTO FALEI!!

A ARTE DO TEATRO (E DO CINEMA) É DO ATOR, PRONTO FALEI!!!
Cine em Cena- Um sopro de Osíris na Terra do Sol midiática


Assisti neste final de semana ao Projeto Cine em Cena, fruto da disciplina Direção de Arte 2: Direção de Atores no curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual do VI Semestre da UESB/ Conquista, sob a orientação da Professora Adriana Amorim. O projeto consiste, entre outras coisas, em um aluno dirigir uma cena teatral com atores, para num próximo momento, transforma-la num roteiro audiovisual.  Uma deliciosa e não menos trabalhosa aventura pelo mundo da imagem, dos signos, do teatro e da atuação. Como o cerne da questão é o trabalho de direção e ator me senti bastante à vontade para comentar e compartilhar.

Quando pensamos em cinema, direção de atores, dramaturgia, roteiro, estamos falando de uma área bastante próxima do teatro. Na Escola de Teatro lembro das aulas memoráveis de Dramaturgia da querida mestra Cleise Mendes vasculhando todos os Doc Comparatos possíveis e nos ensinado, definitivamente, sobre o óbvio na escrita e criação dramatúrgica, sem falar no trabalho de ator, nos elementos do teatro e toda sua história espalhada em muitas disciplinas fundamentais e importantes durante o curso. A área artística e teatral é imensa com um fluxograma grande e importante, o que mostra o quão sério é pisar num palco ou mostrar seu carão numa imagem na tela.

O Projeto Cine em Cena aconteceu neste final de semana no Teatro Carlos Jeovah, um teatrinho repleto de memórias para este sátiro dionisíaco ou para os mais velhos cênicos da terra das rosas. Toda vez que volto a um teatro que atuei, em instantes o véu da memória se cai, trazendo à tona todo um momento vivido e revivido nos nossos extratos e afetos.

Adriana Amorim e seu elenco no Cine em Cena- Foto de Rayza Lélis
A Programação da mostra foi dividida entre o Teatro Carlos Jeovah, na quinta e sexta feira, (23 e 24/04) e no Teatro Glauber Rocha, na Uesb, na terça-feira e quarta-feira, (28 e 29/04). O desafio era encenar ou adaptar clássicos da literatura teatral, o que não é uma tarefa fácil para profissionais, tampouco para estudantes em formação.

Entre toda a programação, o que ficou nítido e claro, neste experimento cênico, é que os trabalhos mais bem-sucedidos, a meu ver, foram, indiscutivelmente, os feitos por atores e diretores inspirados e técnicos! Atores inspirados e técnicos são aqueles experienciados pelos anos de janela ou que nascem de uma paixão inexplicável pela arte da desmedida e do metro. Atuar, estar em cena é ligar muito mais que seus pontos de ouro e closes, é se jogar com uma presença/verdade que nem a tela consegue camuflar,  é estar vivo e inteiro sem cortes ou interrupção, ou se é ou não!

No primeiro dia, na quinta-feira, foram nove cenas apresentadas entre textos teatrais clássicos como Hamlet, Esperando Godot, Valsa nº 6, Um Bonde Chamado Desejo, Auto da Compadecida. Nessa encenação ficou evidente, em algumas cenas, um tom demasiadamente verborrágico, os diretores focaram sua atenção num teatro com força na palavra, bem textocentrista, o que exigiria de seus interpretes um maior cuidado com a articulação dos textos tão consagrados e inesquecíveis, que precisam ser bem-ditos e entendidos por todos. Houve um excesso de teatro declamatório, sem marcas e movimentação específicas para os atores em cena, o que prejudicou o trabalho de alguns interpretes.

Outro dado foi uma opção realista- naturalista para algumas cenas, o que limitou ou expôs as partes fracas de cada uma. Se optamos por esta convenção a interpretação e movimentação dos atores, os detalhes de cenário, figurino, maquiagem devem ser impecáveis, pois não dá ver uma Blanche vestida de época e seu partner com calça jeans e camiseta... Ou então, adereços para a cena ou objetos muitas vezes mal utilizados e sem razão, como uma espadinha, ou adaga na mão do Hamlet, a uma garrafa que quebrava e derramava, sujando a cena.

É claro e notório que nem todos participantes eram atores com experiência, o grupo era formado de não atores também, mas não se trata disso, quando um diretor faz um roteiro deve trabalhar com o que tem e transformar toda e qualquer dificuldade a seu favor, o que exemplifica a atuação do dia seguinte de uma cena de Senhora dos Afogados. É comum tanto no teatro, quanto no cinema, o trabalho com não-atores com resultados surpreendentes!

Assim, a CENA: Por que existem tantos olhos no mundo?  Da OBRA ORIGINAL: Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, dirigida e adaptada por Rafael Oliveira e com atuação da multifacetada Érica Daniela, foi o grande destaque da noite!  Erica estava inspirada e como uma verdadeira atriz soube valorizar um bom texto! O diretor desenhou uma movimentação e elementos de cena que possibilitaram a atriz explorar este universo tripartido desse personagem tão instigante que é Sonia.

A partir daí as cenas se desenvolveram de forma normal.

Algo que me incomodou muito, em se tratando de um projeto de formação, de plateia ou alunos, foi um ar meio de festa de fim de ano de escola. Ali, ao me ver, (sou muito chato nesse sentido, assumo) é um exercício cênico, com uma plateia aberta, não um espetáculo para convidados, mas o público animado e cheio de colegas ou amigos transbordou em excesso nas palmas e gritos, o que realmente se tornou desnecessário, sobretudo, para um teatro tão pequeno e intimista.

Outra coisa chata também foi que a porta do teatro, a de entrada do palco, ficou aberta, então, a todo momento pessoas iam ao banheiro, acendiam a luz que entrava no palco atrapalhando a cena e a concentração dos atores e plateia. É claro que esses detalhes são pequenos, mas na nossa profissão um detalhe pode ser tudo ou nada, ainda mais no reino da imagem, do signo, do som e de cenas que tudo pode significar.

Fora isso, e para um chato teatral de galochas como eu, tudo lindo! E vamos para sexta-feira!

Na sexta foram 12 cenas. Dentre os textos Romeu e Julieta, Escola de Mulheres, Senhora dos Afogados, Entre quatro paredes, O Santo Inquérito, entre outros. Só “porradão” para usar uma linguagem bem peculiar a esta galera!

A presença marcante do coro  em "Édipo Gay". Foto de Maria Andreia Santos
Nesse dia havia mais cenas e os mesmos problemas da quinta se repetiram e/ou aumentaram, até porque as últimas cenas e adaptações de Édipo Rei foram voltadas para um humor fácil com camuflagem LGBTTIS e que fez muita gente rir. Do ponto de vista dramatúrgico foi uma ótima e inovada investida! Acho fabuloso colocarmos toda a criatividade, engajamento e coragem para tocarmos em temas necessários, seja de diversidade, gênero, credo, etnia para gerar uma discussão, porém, algumas abordagens necessitam maior arcabouço. Não é só subir num salto e fazer gírias: A LOKA, ADOOOGO, TA BOA, que transformam um ator num personagem caricato, gay ou midiático. Toda atuação deve ser verdadeira e com o máximo de sinceridade possível, com verdade ou verossimilhança, se bem que para uma atuação queer estes conceitos podem se transformar em outros bem mais adequados. Assim, não consegui me diverti ou rir com uma caricatura mal executada de um personagem gay ou de um ator transformista montado, aliás, os atores transformistas dão um banho em qualquer ator de academia realista, pois se apoderam do seu discurso arte/vida e não de uma encenação apenas.

Dicesar, cavalo de Dimmy Kieer, com seu bordão característico que virou  a marca Adooogo Make Up

Não é fácil representar, seja outro sexo, outra identidade, outra idade ou personagens estereotipados ou arquétipos! Exige muito trabalho, pesquisa, ensaios para não cair num clichê previsível. Acho oportuno poder comentar isso num projeto de experimentações (cênicas) onde o errar e acertar é justamente o motivo para tal exercício dos envolvidos, afinal a arte, o vídeo, a dança, o teatro são produtos a serem consumidos, vivenciados e discutidos. Aí já é outra discussão...

Das adaptações de Édipo Rei, feitas na sexta-feira, a mais próxima de um trabalho cênico e de direção foi a CENA: Um bom Enigma, com DIREÇÃO e ADAPTAÇÃO de Álvaro Meneses e que no ELENCO estavam Cleber Meira, Joadson Mulkannizzer e Yarle Ramalho, com atuações, time e sacadas boas. (A maquiagem e figurino podem melhorar, né bee!) A última cena intitulada Édipo Gay também foi bem desenhada com destaque para a atuação de um coro feminino, que roubou a cena, fora os excessos já comentados.

Cena: Um bom Enigma de Álvaro Meneses. Foto de Maria Andreia Santos
Aliás, a mostra foi definitivamente das mulheres, Érica Daniela, Monica Medina, Hannah Abnner, Izis Mueller ( que texto era aquele?!) Patrícia Chaves, Maria Andreia, disseram a que veio, salvo, a cena do Auto da Compadecida, composta só por dois intérpretes masculinos, que convenceu! Destaque também para a composição do figurino complementar dos Jecas, e tabela de cores usada. Aliás, o cuidado de algumas cenas com o figurino, caracterização e ambientação foi notório para tentar contextualizar cada abordagem escolhida. Só não pode é deixar de iluminar o rosto do ator ou da Julieta esquecida no balcão.
 - Mas não tinha holofotes que chegassem lá, Benigno, não tinha equipe e gente para ajudar na produção, não tinha, não tinha... - podem justificar. Mas alguém usou brilhantemente um castiçal com velas numa cena que foi super funcional e iluminaria a face da Capuleto apaixonada. Aliás, minha gente, a arte do teatro é a arte do não tinha mesmo, então, temos que pensar e resolver tudo mesmo! Ai Iami Rebouças eu também só queria ser atriz e acabou! Produção é coisa do cão!!! 

Ah, antes que eu me esqueça, não posso deixar de mencionar os diretores que usaram o recurso da música ao vivo, em cena. De um lado entrar em cena com um instrumento musical e só usá-lo num único momento é pouco, acho que o recurso musical poderia ser mais explorado e incorporado na dramaturgia, tanto para a cena de Valsa Nº 6, dirigida por Rafael Oliveira; quanto a poética e despretensiosa cena dirigida por Ana Julia Ribas. Duas cenas bem distintas causadoras de sensações diferentes! Os macaubenses Ana Julia e Rafael Oliveira criaram e criarão poéticas imagens ainda por vir, talvez o segredo esteja escondido nas memórias de Macaúbas, do sertão da poesia que nunca seca! Tá explicado! Aguardem!

Poesia brejeira na cena: Mal, me dissestes de tu meu bem! de Ana Júlia Ribas. Foto de Maria Andreia Santos
Agora o maior prazer da noite, para mim, foi ver um texto forte como Senhora dos Afogados na atuação precisa e emocionante da querida Monica Medina e da doce Hannah Abnner. Hannah fez com que voltasse o tempo e assistisse, ali na minha frente, a uma Adriana Amorim encenando Plínio Marcos na Escola Macunaíma em São Paulo. Profunda catarse! Aí vocês podem falar e me questionar: Por que tanta força e presença numa menina que não é dita ou declarada atriz?! Então...

Medina deu a força, contratempo e textura a cena e como é lindo ver uma artista consciente e bela atuando e jogando com uma atriz jovem! Para mim foi um presente ver esta cena por tudo que ela simboliza para a história do teatro brasileiro e para a história do teatro conquistense, feita de uma forma tão particular e nesse momento. Parabéns as intérpretes e ao diretor Deoveki Silva! Emoção!

Como expectadores e atuadores devemos primar para que a nossa arte não se perca só no produto mercadológico. O ritual deve ser presente e renovado sempre, a experiência e a relação entre cada parte do processo valorizada, para que a troca seja prazerosa, afetuosa e transcendental. Se perdemos isso, perderemos a essência da arte ao meu ver, aí podemos fazer outra coisa, outra profissão que não exija tanto a minúcia nos detalhes, a pesquisa eterna, a poesia e o afeto nas relações. E existe alguma profissão que não o tenha?!

Monica Medina e Hannah Abnner em Senhora dos Afogados. Sem comentários! Foto de  Maria Andreia Santos
Sou de uma geração de profissionais da cena que não pesquisava no google e nem na internet, mas no suor do palco e da rua, da pesquisa constante, do respeito pelo público e pela mensagem que levamos!

Ser profissional das artes da cena ou do audiovisual hoje virou moda e todo mundo é ator, performer, cineasta.... E nessa cidade do interior catingueira e desvalida nos cabe uma moira maior, uma vocação política mais forte que o glamour da cena ou da notícia midiática, para brigar por um profissionalismo e políticas culturais, para que a arte assuma um caráter mais presente e necessário na vida das pessoas dessa região ou de qualquer lugar!

Acho este projeto promissor e num momento que Conquista vive uma eterna crise na área cultural, sem políticas públicas, espaços e condições para seus artistas cênicos trabalharem com dignidade sem a necessidade de evadirem para as grandes capitais. Projetos similares de pesquisa e experimentação artística já movimentaram a região por aqui, como o Dionísias Urbanas, do Grupo Caçuá de Teatro, o Assim se Improvisa do Pafatac e Chefinho Santos, a Roda do Teatro na Praça, entre outros. O curso de cinema tem muito a contribuir e valorizar a matéria prima que é o ator, pois num mercado onde a imagem quer ser tudo, não necessariamente o ator, para alguns, será a melhor opção, podendo ser substituído por uma animação computadorizada, desenhos, bonecos, sombras, objetos...

Acervo Caçuá de Teatro no blog do MOVAI.  Disponível em:[http://movimentomovai.blogspot.com.br/2011/03/ano-2002.html]
Em São Paulo está uma febre de cursos de Cinema e uma busca frenética por atores para a conclusão de disciplinas ou tccs dos alunos. Existe um grupo de atores numa rede social que diretores desesperados vem constantemente procurar e selecionar atores para suas produções e trabalhos audiovisuais. Os anúncios são engraçados e revelam o quanto tais diretores e “mídia audiovisual produtiva” valorizam os atores, pois com verba para a locação de equipamentos e produção, esquecem a verba para os seus atores e que sem eles, seus projetos não serão concluídos. Por que não vão fazer filme de animação se não valorizam os atores?! Cada uma! Vai fazer uma Oficina no Studio da Fatima Toledo para ver o quanto é e o que é bom!

Sou apaixonado por cinema e pelo trabalho de direção e atuação junto a sétima e quinta arte, costuma- se falar que no teatro a arte é do ator, e que no cinema, do diretor, mas discordo e concordo com o que o meu saudoso e querido Plínio Marcos, com quem tive a honra de trabalhar, disse num dos seus textos destinados aos atores: " Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica."

Meu Evoé e respeito a Adriana Amorim, parceira de tantas histórias e encontros, e, que sem dúvidas, foi uma chegada festejada e necessária ao curso de Cinema da Uesb; a Cristiano Martins, eterno resistente e a toda equipe desse projeto, principalmente aos ATORES e ATRIZES que emprestaram seu corpo, trabalho e alma para essas criações! 

Vida longa pela frente! Que o cinema aproxime a arte dos nossos corações, com atores insubstituíveis e fundamentais nessa caatinga conquistense! Que a pesquisa e o aprimoramento sejam constantes no nosso trabalho, não se perdendo do encontro e da relação com o outro, que seguidos pelo afeto, pelo respeito e a gentileza tudo se constrói!

Merda e axé para nós, sempre!

mb

Cena do Filme Central do Brasil de Walter Salles.


sexta-feira, 13 de março de 2015

MUITO ALÉM DE TRANSMUTAR!

          MUITO ALÉM DE TRANSMUTAR!
A necessidade e experiência da arte e da performance para a vida!
Foto- Letícia Gomes

São Paulo corrida, mundo contemporâneo, terça-feira, trânsito.
Entre trocas de figurinos e reflexões chega o dia de abertura da Exposição Terra Comunal, de Marina Abramovic, no Sesc Pompeia com a Performance Transmutação da Carne do querido artista baiano Ayrson Heráclito. [http://www.marcelobenigno.blogspot.com.br/2015/02/transmutando-em-carne-arte-e-vida-entre.html]
A abertura foi as 18 horas, do dia 10 de março de 2015, mas todos os que iam performar chegaram as 13 horas no Sesc.

Foto-Acervo pessoal
Ayrson chega, cumprimenta a todos e com seu jeito doce e calmo, começa contextualizar e falar sobre a trajetória da Performance Transmutação da Carne, na Bahia. Olhos atentos a simplicidade do artista/professor/questionador, que aos poucos, vai formando seu corpo cultural de carne de charque e dendê. No bate papo, uma performer pergunta quais são os artistas que Freud ( codinome de Ayrson para os amigos) gosta ou admira no Brasil, e o baiano do interior fala dos grupos do Maranhão, do Nego Fugido de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA), dos Artistas Rastafaris, e de todo um Nordeste à parte e fora de uma seletista Semana de 22, afinal, o Brasil não é só São Paulo e Rio, Nordeste não é só Recife e Salvador...

Foto-  Óli de Castro
Dados os informes, fomos as marcas no espaço para a performance e depois nos paramentar de carne.

Eu, único baiano entre os selecionados para performar junto a Freud, fico pensando na diáspora negra e na minha, como artista interiorano, sertanejo e nordestino dentro daquele espaço projetado por Lina Bo Bardi e tomado pela obra de Marina Abramovic. A Exposição Terra Comunal [http://terracomunal.sescsp.org.br/] mobilizou muita gente e ficará até maio no Sesc Pompeia, com palestras, encontros, vivencias.
Penso de novo na importância da arte para as pessoas, para as cidades e como o investimento em cultura pode definir e mudar a histórias de tantas! Ayrson tem uma trajetória construída na labuta constante por espaços, pela quebra de paradigmas, sobretudo, tocando em temas como a cultura negra no Brasil e na Bahia, o candomblé e seus rituais. – Os símbolos são a linguagem de um artista. Não há como separar arte da cultura e da vida das pessoas.

Foto- Aline Alves

Hora de descer.

Todos prontos para o ritual. Ficar quase quatro horas imóvel, em silencio, ativo e esperando a hora de ser marcado. Reflexão forçada para mim nesse momento entrecruzado. - Um artista tem que entender o silêncio.

Cortejo.


Foto- Danielle Rosa
A energia toma conta do espaço e do público. Algo que não se pode mensurar, afinal, nas artes das cenas a presença e organicidade se fazem vivas no corpo e na hora! Segue o cortejo dos iniciados, a passos lentos, quase flutuados, numa cadência uníssona, quase hipnótica. Forma-se um corredor vivo por onde os transeuntes passam ao meio, só para depois, todos ocuparem seus espaços e lugares. Silêncio, calma/turbilhão, espera.


Hora de marcar.

Foto- Danielle Rosa
Olho no olho do transmutador com ferro em riste. Contato estabelecido. Tento ser só o cavalo para uma leitura de tantas possibilidades. Momento da ação. O ferro vermelho no peito/carne levanta uma fumaça branca e densa. Viro o rosto, fecho o olho mas volto e encarro o transmutador. Mais fumaça, viro novamente, a fumaça parece ordenada e coreografa uma dança na minha face obrigando a não fitar. Cessa a fumaça, marca feita, olhos direcionados ao ferreiro, agora, eles estão cheios de uma água que purifica aquele corpo performer em cena. Nesse momento, um mundo passa na mente e o tempo rompe uma fração mágica. O ferreiro continua a fitar e depois de um tempo sai para continuar sua missão.

Foto- Danielle Rosa
Volto a olhar a parceira na minha frente, minha linha de fuga, do outro lado da rua/corredor. O corpo marcado sente o peso, o chão de pedras irregulares, as conversas das pessoas ao lado, os flashes frenéticos dos passantes, a todo instante, registrando o momento ainda não codificado e suas indagações. Nesse trajeto, algumas pessoas pararam e religaram comigo, fitando e trocando energia. Uma moça branca, de cabelos enrolados na altura do ombro, me olhou por um tempo considerável. Seu olhar buscava algo no meu, insistia entender a minha dor ou que sentimento era aquele do cavalo. Ela colocou a mão no plexo solar como quem se despedisse e saiu com os olhos aguados. Após um tempo ela volta, para novamente frente a mim, dá um beijo no meu rosto e sai. – O artista deve dar e receber ao mesmo tempo.

Foto de  Óli de Castro
Link de vídeo feito por Victor Gally:

Nesse momento uma chuva fininha cai sobre os corpos marcados acalentando quase essa saída de feitura. Sensações ampliadas, desejos restaurados, vida pulsante.

Foto- Letícia Gomes
Ao longe sinto a luz do lampião que se aproxima. O cortejo caminha vagarosamente em transe e o corpo parado começa a tomar vida e caminhar para fazer parte do grupo. O que passa na cabeça de cada um ali marcado? Quais significados na sua trajetória corpo/vida/arte são remexidos e rememorados? Mera performance distanciada? Encenação? Espetáculo?! Cada um é afetado pelo o que se deixa ou pelo o que é formado?! – O artista não deve ter auto-controle sobre sua vida – O artista deve ter total auto-controle sobre seu trabalho.

Acaba a performance.

Foto- Victor Gally
O tempo não foi tão longo como pensei, senti passar rápido, talvez pelas conexões que estabeleci nessa trajetória e os contatos feitos. Não lastimo a dor do percurso, não fico reclamado dela ou das escolhas que fiz e faço no meu cotidiano e trajeto. Continuo.

Foto- Victor Gally
Nessa transmutação da carne refleti, entre outras coisas, sobre o papel da arte e dos artistas que estão perdidos em cidades e locais que expulsa-os, por não reconhecer neles e na cultura, potencias criadoras e de transformação local! Marina Abramovic ao vir ao Brasil escolheu oito artistas brasileiros para performar na sua exposição, mostrando a importância e necessidade de valorizarmos o que é nosso, afinal, arte, cultura e artistas se tem em todos os lugares, mas com tratamento e prioridades bem distintas!

Passe pela experiência, é o que sempre digo!

Mil teses ou dissertações, teorias ou divagações não seriam capazes de captar um milésimo da vivencia e potência de Transmutação da Carne, de Ayrson Heraclito.

Foto- Letícia Gomes
Por todas as questões tocadas de pertencimento, ancestralidade, escravidão, marcas, espaços, corpo cultural, o que me vem agora, tentando relatar sobre, é: Por que será que somos só ou mais valorizados e reconhecidos fora do nosso domicilio artístico?! Por que esta necessidade descontextualizada de uma arte/mídia/consumo?! Será que a Bahia/ Salvador/ Conquista/ Brazil sabem a força e o poder da sua arte e dos seus fazedores?! Algumas questões que não me saem da cabeça...

Volto para casa num ônibus calmo, numa São Paulo tranquila. Meu olhar parece desmiopado e tudo amplia as sensações. Não durmo. Quem atua ou performa sabe o que eu digo! Tento escrever algo e não consigo. Vejo as fotos e vídeos tirados pelos amigos e fico perplexo pela potência das imagens. O performer não encena, ele é o veículo! - O artista é o universo. – Um artista deve ter amigos que elevam seus espíritos.


Foto- Warley Almeida

Amanhece. 

Estou varado de fome e sem pestanejar vou num restaurante/bar e peço um prato comercial de bife. Como a carne prosaicamente lembrando uma Neusa Sueli, na cena final de Navalha na Carne, de Plínio Marcos e vou voltando a realidade, voltando a realidade, voltando a realidade... O atendente jovem e nordestino sorri, diz o preço da refeição e me chama de patrão. Brinco com o verbete foucaultiano e digo a ele que estamos no mesmo barco! Ele sorri, mais uma vez, só que com um brio diferente!

Saio do bar e a chuva cai novamente forçando a lembranças e memórias que ela, parceira de tantas fases, insiste em me marcar. Marcado pelo ferro, pelo fogo, pela chuva, pelo lugar, marcado pelo teatro! Marcas que levamos para sempre, boas, ruins, provisórias, permanentes, marcas!

Que nos transmutemos em arte, fogo e vida fazendo do tempo um aliado para perpetuar nossa existência e caminhos. Que a necessidade da arte seja diária, respeitada, valorizada e insubstituível! Axé Ayrson Heráclito e sua cuidadosa equipe baiana pelo trabalho e passagem. Axé Marina Abramovic bruxa sabática da performance. Axé ao Sesc por possibilitar  tudo isso! 

Laroyê aos caminhos que se abrem sempre! Andemos!

Foto- Acervo pessoal. O cavalo e o ferreiro

MB. São Paulo, 11 de março de 2015.

PS: Os trechos inspiradores em itálico são do "Manifesto sobre a vida 
do artista" de Marina Abramovic: 

Agradecimento especial aos amigos artistas que presentearam 
com suas presenças e registros fotográficos dessa linda memória ainda latente.