quinta-feira, 21 de setembro de 2017

É nesse Shirê que eu vou! Macumba Antropófaga do Teatro Oficina é o elixir que vai curar esse país doente, corrupto e careta!


Religuei mais uma vez com o axé do Teatro Oficina na Macumba Antropófaga. O ritual e trabalho desse coletivo de guerreirxs se faz para mim, como revitalizador e necessário como atuador que sou e sátiro das caatingas e estradas que me abrem misteriosamente.



Agora o que se faz urgente é convocar a todxs, que ainda não participaram dessa experiência, para se fazerem presentes nesta última semana em cartaz.



A Macumba ali vivenciada nos leva de volta a nossa origem indígena e mestiça de um pais ainda em construção! Corpos conhecidos do Oficina, alguns novos e outros elétricos demais nesse dia, abriram as ruas e espaços para os elementos desse ritual. É inegável a presença dilatada dxs atuadorsx Danielle Rosa, Nash Laila, Glauber Amaral, Tony Reis em cena. Letícia Coura com uma beleza e vigor impressionantes, além de um talento para as artes plásticas demostrado numa performance em cena que se modifica. Esse trabalho, sem dúvida, tem o destaque de todo o grupo que o compõe, Camila, Marcelo e de um Roderick mais apolíneo que dionisíaco em cena e que foi ótimo! Joana Medeiros sempre necessária e Sylvia Prado, cadê você diva, (atuamos não só na pista mas para que ela aconteça também, né non!), além da composição de Cyro Morais um pernambucano arretado que traz a cena entidades ancestrais com uma leveza que nos parece fácil. Há ainda a plenitude da atriz grávida e linda, Fernanda Taddei e Clarisse Johansson numa crescente atuação junto ao público!! Amém, irmãos?! Lindo de ver!





Poderia falar de cada “cena” ou quadro marcantes, como a cena de Zé, revivendo seu irmão e cantando “Ressuscita-me” com um lirismo e beleza incomuns; o bailar carnavalesco do cenário; a entrega do público atuador nessa catarse coletiva; ao cortejo pelo bairro do Bixiga. Meus Deuses como eles aguentam?! Esses atletas cênicos conseguem transpor toda sua energia e prol de um teatro ritualístico e vital para cada um.



Bombas atômicas, terra, fogo, água e ar, presidentes em guerra, Brasil corrupto, política conhecida e suja, a guerra pelo terreno daquele terreiro eletrônico vem à tona como banquete às convivas presentes.
Embora o título do espetáculo seja forte e sugestivo, nessa macumba os orixás e deuses passearam menos que em outrxs trabalhos, dando passagem e licença para os modernistas encarnados ali. Mesmo o Oficina que amo e venero ainda é muito branco na cor e no corpo, e de cima, de onde vi, a melanina ainda não se destaca. Num país tão grande ou numa capital tão plural, onde estão os atuadores miscigenadxs ou misturadxs desse país tão colorido e diverso?!

Se falta cor no corpo e não nas tintas, ela exala das notas musicais da excelente direção musical e execução, ao vivo, daquela ópera contemporânea. Com efeito quase que transe, tântrico ou hipnotizador, certamente a Macumba veio pelos ouvidos a nos encantar como sereias dos rios secos, vazantes ou de lama. Toda a banda transcende sincronia e irradia todo aquele espaço junto aquele coro cantador. Imagine a Macumba sem aquela música? Impossível! Como no axé, a música é que evoca os orixás a conviver conosco dançando no nosso meio a nos visitar e abençoar.


Não poderia deixar de falar da atuação e transmissão fílmica dos kino atuadorxs Igor Marotti e Cafira Zoé irradiadíssimos em cena com imagens belíssimas. Outro Desbunde que só o Oficina sabe fazer! E fiquei feliz com a presença da atriz piauiense Kelly Campello! Identificação é algo que sempre procuro num trabalho, sobretudo artístico, ao ver uma atriz nordestina naquele espaço tão potente e necessário, devemos celebrar! Cada um de nós paga um preço muito alto para honrar sua arte e estar em cena, ainda mais nessa Sampã tão opressora e antagônica... Evoé!


Olha eu fazendo outro texto grande e descritivo do Oficina traveis! Então, antes que esta escrita comece a ficar enfadonha demais, gostaria de convidar a todxs para participar desse acontecimento que termina nessa semana.

Agora mais do que nunca a arte se faz presente para transformar nossa realidade. Todxs estamos na linha de ataque! O Oficina com seu teatro avassalador é um diferencial transformador para cada ser vivente e todx aquele entorno ameaçado. O Oficina é um bálsamo para acalentar a nossa dor de cada dia e nos dar as armas não só o prazer!

Que venha o “Rei da Vela” para mostrar a todxs que cultura e arte são necessárias para as nossas vidas!

Evoé guerreirxs! Meu respeito, amor e admiração! AXÉ!! Bom encerramento de temporada! Só a arte salva!
As fotos que ilustram esta postagem é da multi artista Jennifer Glass.


SERVIÇOS | MACUMBA ANTROPÓFAGA
Incorporação do MANIFESTO de OSWALD DE ANDRADE
Temporada: Até 24/09, sempre aos sábados e domingos.
Horário: 16h00
Ingressos: R$ 60,00 (inteira), R$ 30,00 (meia) e R$ 20,00 (moradores do Bixiga, mediante comprovação de residência).
Local: Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga. Tel: 11. 31062818)
Capacidade: 350 pessoas.
Duração: +- 5h
VENDA DE INGRESSOS
antecipados: http://bit.ly/ingressosmacumba
ou no dia, na bilheteria do teatro, uma hora antes de cada espetáculo
Indicação etária: 18 anos.
Transmissão ao vivo: https://www.youtube.com/user/uzonauzyna
SEJA UM CO-PRODUTOR DO TEAT(R)O OFICINA: http://teatroficina.org/

MACUMBA ANTROPÓFAGA 2017 – FICHA TÉCNICA


TEXTO
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA
RODERICK HIMEROS
CATHERINE HIRSCH
Y companhia uzyna uzona
DIREÇÃO
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORREA
CONSELHEIRA POETA
CATHERINE HIRSCH
DIREÇÃO MUSICAL
FELIPE BOTELHO
ATUADORES
ZÉ CELSO
MARCELO DRUMMOND
LETÍCIA COURA
CAMILA MOTA
ANA HARTMANN
CLARISSE JOHANSSON
CYRO MORAIS
DANIELLE ROSA
FERNANDA TADDEI
GABRIELA CAMPOS
GLAUBER AMARAL
ISABELA MARIOTTO
JOANA MEDEIROS
KAEL STUDART
LEON OLIVEIRA
LUCAS ANDRADE
MARIA BITARELLO
NASH LAILA
RODERICK HIMEROS
SELMA PAIVA
TONY REIS
TULIO STARLING
BANDA ANTROPÓFAGA
PEDRO GONGON (bateria)
FELIPE BOTELHO (baixo elétrico)
CARINA IGLECIAS (percussão)
ITO ALVES (percussão)
CHICÃO (piano e teclados)
MOITA (guitarra elétrica)
SONOPLASTIA
ANDREIA REGENI
DECO
PEDRO MACEDO
PREPARAÇÃO VOCAL
FELIPE BOTELHO
DIREÇÃO DE CENA
OTTO BARROS
FIGURINO
SONIA USHIYAMA
CAMAREIRA
CIDA MELO
MAQUIAGEM
PATRÍCIA BONÍSSIMA
ARQUITETURA CÊNICA
CARILA MATZENBACHER
MARÍLIA CAVALHEIRO GALLMEISTER
OBJETOS CÊNICOS
CARILA MATZENBACHER
MARÍLIA CAVALHEIRO GALLMEISTER
IBIRAPANEMA E MÁSCARA DO TOURO DE WALL STREET
RICARDO COSTA
CONTRAREGRAGEM | MAQUINARIA
OTTO BARROS
KELLY CAMPELLO
SOM
FELIPE GATTI
MICROFONISTAS
RAFAEL TOM LUZ
ULYCES WELL-RYRYR
DESENHO DE LUZ
LUANA DELLA CRIST
CONSULTORIA DE LUZ
RENATO BANTI
OPERAÇÃO DE LUZ
LUANA DELLA CRIST
MONTAGEM
LUANA DELLA CRIST
PEDRO FELIZES
CYNTIA MONTEIRO
NARA ZOCHER
OPERADOR DE MOVING LIGHTS
PEDRO FELIZES
PIN BEAMS
PEDRO FELIZES
CYNTHIA MONTEIRO
NARA ZOCHER
CINEMA AO VIVO
IGOR MAROTTI (kinoatuador, diretor de fotografia, câmera)
CAFIRA ZOÉ (kinoatuadora, câmera, poesia visual)
CECÍLIA LUCCHESI  (edição de vídeo ao vivo)
GUILHERME PINKALSKY (live cinema)
PRODUÇÃO EXECUTIVA | ADMINISTRAÇÃO
ANDERSON PUCHETTI
PRODUÇÃO
EDERSON BARROSO
BRENDA AMARAL
SYLVIA PRADO
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO | ESTRATEGISTAS
CAMILA MOTA
MARCELO DRUMMOND
SYLVIA PRADO
ZÉ CELSO
EDITORIA WEB
BRENDA AMARAL
CAFIRA ZOÉ
CAMILA MOTA
IGOR MAROTTI
KAEL STUDART
NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO ANTROPÓFAGA | MÍDIA TÁTICA
BRENDA AMARAL
CAFIRA ZOÉ
CAMILA MOTA
PROGRAMAÇÃO VISUAL
IGOR MAROTTI
PROGRAMAÇÃO WEB
BRENDA AMARAL
OPERAÇÃO DE LEGENDAS
MARIA BITARELLO
AUDIODESCRIÇÃO
MARÍLIA DESSORDI
TRADUÇÃO PARA O INGLÊS
MARIA BITARELLO
MAKUMBAS GRÁPHICAS | IMAGIÁRIO
CAFIRA ZOÉ
CAMILA MOTA
IGOR MAROTTI
COLUNISTA DO SITE
KAEL STUDART 
IMAGIÁRIO VISUAL E VIDEOARTE | UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA
CAFIRA ZOÉ
BAR DAS GATAS PRETAS
EVELI DE OLIVEIRA SILVA
CRISTINA OLIVEIRA
WELINGTON SOARES
LIMPEZA
ROSE OLIVEIRA
GLÓRIA BRITO
LUIS CARLOS PEREIRA DA SILVA
VIGILANTES
JOSÉ CÍCERO ALVES BARROS
JURACI VIEIRA DE MELO
RAFAEL PEREIRA DA SILVA
BOMBEIRA
AMANDA AGUIAR

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ENTRE A CRUZ, A ESPADA E A ESTRADA. E A HISTÓRIA SE REPETE...


"Um povo sem o conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes."

Com o pensamento do ativista jamaicano Marcus Garvey que evoco a deusa da memória Mnemosine para me acudir a relembrar a trajetória de mais um trabalho do Grupo Caçuá de Teatro.

O Caçuá originou-se na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-UESB, no ano de 1998, com o projeto de extensão acadêmica Grupos de Arte da UESB. De lá pra cá, o grupo catingueiro tornou-se independente, reconhecido e premiado no interior baiano por seus espetáculos, projetos e ações na formação de atores e pesquisa com a cultura popular nordestina e sertaneja.

Parece chato, e é muitas vezes cansativo, ficar referendando a seu currículo e trabalhos anteriores, toda vez que vamos falar de alguma coisa ou conquista. Mas numa geração efêmera, oportunista, esquecida e totalmente acostumada a ser a mais antenada, jovem e moderna do momento, (sendo na verdade, o estereótipo dela mesma, sobretudo nas artes das cena), quem tem uma história verdadeira e construída com muito trabalho e reconhecimento, deve falar e alardar, em alto tom, aos quatros quantos, pois nem tudo que a internet guarda está emaranhado nos nossos extratos e discurso-corpo-arte-vida.

Então, vamos conhecer um pouco do Processo Criativo do Entre a Cruz!

Estreei o "Entre a Cruz, a Espada e a Estrada- Como nasce um Artista Sertanejo" nos palcos do Teatro Vila Velha em Salvador, através de dois Projetos dessa casa.

Foto- Márcio Lima
Entre a Cruz no Teatro Vila Velha em Salvador.

Em dezembro de 2004, no Projeto Teatro de Cabo a Rabo, mostrei pela primeira vez, ao público, o processo e pesquisa deste trabalho. O Caçuá, no ano anterior, participou do Teatro de Cabo a Rabo com dois trabalhos: O Auto da Conquista e o Cordel do Pavão Misterioso. O Projeto Teatro de Cabo a Rabo levava grupos do interior para se apresentarem e trocarem experiências em Salvador, além das oficinas e espetáculos que eram oferecidos nessas cidades por uma equipe do Vila.

Seguindo a pesquisa popular e através do Projeto interno do Grupo: “Solos do Caçuá” nascem os trabalhos: Vidas Secas- Um olhar de Fadriano, solo do atuador Adriano Soledade e o “Entre a Cruz, a Espada e a Estrada- Como nasce um Artista Sertanejo”.








Em junho de 2005, o Entre a Cruz volta aos palcos do Vila, em sua versão definitiva, agora no Projeto: O que Cabe neste Palco, saindo direto para o VI Festival de Cenas Curtas- Galpão Cine Horto, do Grupo Galpão, em Belo Horizonte, onde sou o primeiro baiano selecionado! Lá o espetáculo tem ótima aceitação, sendo elogiado pelo público e crítica mineira!


De volta a Bahia continua a romaria percorrendo Festivais de Teatro e temporadas. Em novembro de 2005, em Conquista, participa da Programação de Inauguração do Espaço Atuar, da querida mestra Sônia Leite. [ http://www.uesb.br/ascom/ver_noticia_.asp?id=919]



Sem esfriar o caçuá, em janeiro de 2006, participa do Festival Ipitanga de Teatro, em Lauro de Freitas, e ganha o Prêmio Revelação - Profissional de Teatro.  Retorna aos palcos baianos com temporadas no Teatro Gamboa em Salvador, dentre outros espaços.


Em 2008, comemorando os 10 anos do Caçuá, ganha o PRÊMIO JUREMA PENNA - Edital de apoio à Circulação de Espetáculos de Teatro, no estado da Bahia, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB, e Secretaria de Cultura, com o Projeto:Água Mole em Pedra Dura... 10 anos de Caçuá aqui e Acolá”, percorrendo cinco cidades entre o interior baiano e a capital, apresentando o espetáculo, oferecendo oficinas e debates do MOVAI- Movimento de Valorização do Artista do Interior, para a comunidade e artistas locais. A verba do Prêmio era para percorrer até 3 cidades no interior, mas o Projeto percorreu 5 entre zona rural e urbana! Nesse ano também, participa do Marco do Teatro e Circo no Espaço Xisto Bahia em Salvador.






Hoje, em 2017, depois de muitas estradas, idas e voltas, ( para saber mais sobre as minhas aventuras e trabalhos na arte e na vida é só olhar ai no blog...) o Entre a Cruz é selecionado para o  Polo Teatral- Festival de Teatro do Interior da Bahia, com patrocínio da Braskem e do Ministério da Cultura.



Na época que estreei, e até recentemente, na Bahia, não se falava em Prêmios para o Teatro do Interior. Salvador acaba sendo a única nomenclatura para se referir ao teatro baiano, em meio aos 417 Municípios espalhados pelo estado e tantos coletivos e artistas teatrais porretas e qualificadxs! Salvador sozinha não é a Bahia! Quem não lembra que até os valores para os editais de montagem eram diferentes entre capital e interior?!...

Agora revendo o material do Entre a Cruz junto as discussões do MOVAI percebo que a relação da cultura e arte no interior baiano, a relação com os artistas e profissionais das artes em suas cidades e com o poder público local, e a ausência de políticas públicas culturais para o interior são inexistentes ou pouco expressivas, sobretudo, para quem não faz uma arte meramente comercial.

Para se ter uma ideia real, se fossemos depender da ajuda do poder público e empresariado conquistense, e se não tivesse corrido atrás do apoio da Funceb- Fundação Cultural do Estado da Bahia, através do Professor Armindo Bião, na época Coordenador Geral, não teríamos participado do Festival Cenas Curtas em BH!!

E agora, Secretaria Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, o que você me diz, dessa vez?! Pausa Dramática...

O Entre a Cruz é inevitavelmente, fruto de Festivais e Projetos de Incentivo e Fomento ao Teatro, e de um trabalho árduo pelo Teatro do Interior da Bahia e a Cultura Popular.

É necessário que projetos como o Polo Teatral, o Teatro de Cabo a Rabo, o Festival de Cenas Curtas Galpão Cine Horto existam e aconteçam para viabilizar a existência de novos trabalhos e movimentar a produção teatral, principalmente onde ela não chega!

A Programação do Polo Teatral começa dia 14 de fevereiro e estaremos nos apresentando nos dias 17 e 18 de março, as 20 horas, na cidade de Camaçari, para celebrar a cultura e teatro popular do Interior! De Conquista, ao todo, foram três espetáculos selecionados!

Temos que comemorar e mostrar novamente, e sempre, a força, resistência e qualidade do nosso trabalho!

Veja a Programação completa do Polo Teatral nos links:

Acompanhe agora, na postagem abaixo, com foi a nossa participação no Cenas Curtas e a potente experiência que tanto nos inspirou! Axé, Evoé e Merda! Mais Estradas, cultura e arte para nós!!


Entre a Cruz, a Espada e a Estrada em Belo Horizonte, no Festival do Grupo GALPÃO-
Ou a Balada de um louco pela arte popular- Relatório para a FUNCEB


Fomos selecionados para participar do VI Festival de Cenas Curtas Galpão Horto, que aconteceu entre os dias 23 a 26 de junho de 2005, em Belo Horizonte, Minas Gerais, com o trabalho: Entre a Cruz, a Espada e a Estrada- Como nasce um artista Sertanejo.

Apesar da alegria de ser o único representante do Nordeste neste Festival não tínhamos como custear os gastos com as passagens, hospedagem, alimentação e produção desta empreitada.
Recorri a várias entidades culturais, empresários e políticos da minha cidade interiorana que dizem ser os incentivadores da cultura e arte locais e mesmo assim, não obtive êxito.


Enviei então uma solicitação a Fundação Cultural do Estado da Bahia que atenciosamente prometeu me ajudar, custeando a minha ida a Belo Horizonte, efetivando a minha participação no referido Festival.

O Festival começava dia 23 de junho e tínhamos previsto sair de Salvador no dia 24, inclusive para diminuir os custos da viagem.

Só que até a véspera de São João a ajuda de custos não saíra, o que me preocupava.

Pedi aos Santos Juninos que olhassem por nós e nos levassem até o Festival! Na semana da viagem estive na Fundação Cultural e o pessoal garantiu que a ajuda sairia a tempo!

Decidi com o pessoal do Grupo se o dinheiro não saísse até o dia 23 de junho não poderíamos ir, pois era feriado e dificultaria tudo.

Não obstante, já meio desanimado fui conferir e a ajuda de custos tinha saído! Mal pude acreditar! Saí louco para comprar as passagens e providenciar o que faltava, pois, dia 23 já estava o comércio todo fechado, devido aos festejos juninos!
Nesse corre-corre conseguimos um voo com desconto, que ficou igual ao preço das passagens terrestres e corremos para arrumar nossas malas e caçuás. Como o voo era promocional seu horário seria as 04:55 da madrugada, mas era a única maneira de chegarmos e não perder mais um dia de festival.

Saímos da Residência Universitária da Ufba, no Corredor da Vitória, no último ônibus coletivo para o aeroporto. Imagine aquela tralha toda no ônibus? Dois caçuás grandes, três sacos de linhagens com manivas e esterco de vaca, além do zabumba, santos, oratórios e estandartes nas nossas bagagens...
Quando chegamos no aeroporto não tinha quem não olhava para gente!
Até o horário do voo deu tempo para pensar, anotar tudo até embarcarmos!


Chegamos pela manhã no Aeroporto de Confins e imediatamente pegamos um ônibus para a capital mineira.
Ficamos hospedados no Hotel Zac onde todos os participantes estavam acomodados.
Era hora de descansar para à tarde conhecer o teatro e o pessoal do Galpão. Fomos muito bem recebidos pela Fernanda da Agentz, produtora responsável pelo Cenas Curtas.
Conversamos rapidamente pois estava tendo ensaio no teatro, das apresentações daquele dia.


A noite fomos assistir as cenas do dia, ou melhor, da noite. Cada noite era apresentada quatro cenas, como segue a programação em anexo. A minha apresentação seria a primeira do domingo, dia 26 de junho, último dia do festival.

Quanto ao festival, tudo me impressionou pela organização, competência e principalmente o carinho de toda a equipe desde a organização do festival, as equipes do teatro, aos trabalhos de ruas...
No dia 24, à noite, assistimos ao Festival.




A cena Pelo Cano de São Paulo e de criação de Paola Musant e Vera Abbud, conseguiu tirar muitos aplausos da plateia com dois clowns fazendo evoluções com dois canos flexíveis. O Chapéu, outra cena, só que do Rio de Janeiro, chamou muito a atenção pela proposta da releitura do clássico infantil Chapeuzinho Vermelho, numa performance moderna, estrategicamente marcada em movimentos e trocas de elementos cênicos que transformavam as duas atrizes nos personagens da história infantil com todos requintados de humor, erotismo e crítica.
O nível e a variedade das cenas estavam bem equilibrados!


No sábado, os destaques foram as cenas Felicidade de Nuvem, de Belo Horizonte e O Espectador do Rio de Janeiro. A primeira, um texto extremamente poético e uma interpretação precisa do elenco conquistaram a plateia onde o mínimo é sempre o máximo. Já em O Expectador o texto muito bem escrito tornava a relação entre uma expectadora, após ver um espetáculo, e uma atriz numa discussão metafórica de um longo relacionamento amoroso entre plateia e artista.
E chega o bendito dia!

Logo pela manhã marcamos os objetos de cenas, passamos a luz, delimitamos o espaço e ensaiamos a apresentação. A equipe do teatro era impecável e não reclamava de trabalho! A organização era tamanha que tínhamos horários pré-determinados para tudo!
A minha cena, por exemplo, era cheia de elementos, a começar pelo cenário, uma cruz desenhada no chão com manivas e os banhos sugeridos de farinha, sangue e água pendurados em sacos espalhados no palco.

E a noite demorava a chegar!
Mas tudo pronto!
Começamos a cena recebendo as pessoas na entrada cantando as chulas e cânticos de reis da nossa região. A multidão toda entrou no clima da cena e não se intimidou e nos acompanhou como podia, cantando ou dançando alegres.


Ao ouvir a voz que anunciava as apresentações da noite, entramos em cena realizados, levando conosco toda alegria e cultura da Bahia, do sofrimento e resistência dos artistas interioranos e populares, e a força da nossa tradição catingueira!

Foi mágico e os aplausos confirmaram a identificação do público com a estória do artista sertanejo para realizar seus sonhos de gente e de artista popular frente a esse mundo louco.
Após a apresentação, subi para apreciar as outras cenas restantes.
O público também vibrou com O Homem Elefante Marinho Adestrado, de São Paulo, onde um ator interpretava personagens de um espetáculo infantil utilizando muita criatividade para suas composições.

No camarim muitos comentários sobre o nosso trabalho, considerações a respeito da composição e integração da cultura popular, dos atores músicos, “da sinceridade”, como muitos repetiam sobre o que sentiram ao ver o Entre a Cruz.

No final muitas saudades, comprimentos e abraços aos mineiros e paulistas que participaram do festival!
Nossa participação fez renovar a nossa crença numa arte popular feita fora do eixo da capital baiana que resgata a nossa cultura no seu repertório.
Voltamos para Salvador no outro dia, a tardezinha.


A viagem de ônibus trouxe muitas reflexões, até mesmo quando no ônibus “um louco” queria quebrar a janela e agredir os passageiros. Aparentemente ele era uma pessoa “normal”, mas em dados momentos se incomodada com alguma coisa e começa a gritar e bater na janela e agredir os passageiros. Após duas tentativas de quebrar a janela aos murros, e de Fabiana Araújo, do Caçuá, que estava sentada ao lado dele, quase morrer do coração, o ônibus parou e ele acabou sendo levado pelo Serviço Médico de uma cidadezinha à beira da estrada, tranquilizando a todos.
Será que ele era mesmo “louco”? O que é esta tal sanidade? Somos normais diante desse mundo tão enquadrado?

Voltei para casa com aquela cena na cabeça, pensando que muitas vezes somos loucos e sós, incompreendidos na nossa arte e possibilidade de ver o mundo de outra forma.
Um homem sozinho conseguiu mobilizar um ônibus de cheio de pessoas.
O que podemos fazer utilizando a força da nossa arte? Seremos jogados para fora como “o louco” do ônibus?  O que nossa arte representa para aquelas pessoas do ônibus? E para tantas pessoas da minha cidade e Estado?

Quero um sentido para a minha arte! Quero poder levá-la para muitas pessoas, poder tocá-las com uma mensagem de reflexão e mudança que ultrapassa o divertimento banal e comercial.
Acham que sou louco?! (...)

Gostaríamos muitíssimo, não de agradecer, mas de parabenizar a sensibilidade de todos que colaboraram para a nossa participação no VI Festival de Cenas Curtas Galpão Cine Horto, desde a comissão a toda produção do festival, ao meu grupo que sempre deu o sangue e acredita no nosso trabalho, apesar de todas as dificuldades possíveis e imagináveis.


Gostaríamos de um agradecimento especial a Fundação Cultural do Estado da Bahia, que sem o seu apoio não poderíamos representar a nossa região em tão importante festival!
Nunca nenhum baiano tinha participado do festival, principalmente, sendo respaldado por um Instituição Cultural de Salvador.

Agradecimento especial ao professor Armindo Bião a Ana Margarida pela atenção e sensibilidade! E a todos os santos que nos acompanharam e nos acompanham neste cortejo popular de levar a nossa verdade contida na nossa arte a tantos lugares e pessoas que precisam se valorizar e valorizar a sua cultura, diante de uma realidade tão consumista, que ignora a tradição para dar vazão a uma modernidade vazia e passageira.

Gostaríamos na oportunidade de apresentar este espetáculo em Salvador, no Espaço Xisto Bahia, para que os baianos e soteropolitanos se orgulhem dos seus artistas e trabalho.

Pedimos ao Professor Armindo Bião, na pessoa da Fundação Cultural do Estado, uma oportunidade de apresentarmos, ainda neste ano, completando mais um percurso e continuando com a nossa novena teatral rumo a outros palcos e lugares.
Buscamos algumas pautas nos teatros de Salvador, mas todos estão ocupados com grandes produções da capital e não iriam abrir nenhum precedente para um trabalho pequeno, simples e do interior baiano.
Acham ainda que sou louco?!
Às vezes a realidade só permite os lúcidos, os mais reconhecidos e patrocinados.
Mas nós vamos chegar lá! Se Deus quiser!
Louvado Seja Nosso senhor Jesus Cristo!

Marcelo Benigno
Vitória da Conquista, 08 de julho de 2005.

Foto- Márcio Lima
Entre a Cruz no Teatro Vila Velha em Salvador.


FICHA TÉCNICA DE TODOS OS TEMPOS

Texto, concepção, atuação e direção- Marcelo Benigno
Co-direção- Marcelo Souza Brito
Assistente de Direção- Francisco André
Direção Coreográfica- Aroldo Fernandes
Figurino- Jonhy Karlo e Marcelo Benigno
Cajado e vassoura de Seu Belo- Osnir Amorim
Camisas do espetáculo- Renato Oliveira
Músicos atuadores- Eudes Cunha,Vinícius Marques, Fabiana Araújo, Aline Amorim, Francisco André, Jefferson Souza, Kleyton Andrade
Iluminação e Operação de luz- Rivaldo Rios, Maick Barreto
Gravação do texto e trilha- Stúdio do Vila- Jarbas Bittencourt
Operador de Som e Cenotécnico- Carlos Santana, Judá Cabral
Fotografia- Márcio Lima
Projeto Gráfico- André Bonfim
Assistentes de Produção- Temporada do Prêmio Jurema Penna: Conquista-Thiago Carvalho;  Feira de Santana- Celly Rodrigues; Itambé- Zizi Ferreira; José Gonçalves- Legião de Maria- Comunidade Imaculada Conceição; Valença-Ana Cláudia Machado- FACE; Salvador- Grupo Caçuá de Teatro
Produção Executiva e Pau Pra Toda Obra- Marcelo Benigno

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