sexta-feira, 31 de agosto de 2018

CARBONO em Conquista- Tudo se copia, nada se cria! Texto de 2004



CARBONO em Conquista- Tudo se copia, nada se cria!
              Reflexões Stanislavskianas à geração Big Brother, da “proposta”, e da preguiça.
          Oxigênio, por favor, SATED à vista!          
      Junho/2004

Estive recentemente em Conquista aproveitando o recesso junino da UFBA para ver as trezenas e festa de Santo Antônio, meu santo de devoção, que acontecem no distrito de José Gonçalves, mais conhecido como Guigó. Antes, porém, resolvi dar o ar da graça no Projeto Carbono, promovido pela Família Pafatac no Teatro Carlos Jehovah.
Á princípio, iria como mero expectador, mas como tinha uma cena pronta de “Esperando Godot” de Samuel Becket, resolvi encená-la.

Este projeto, descendente do antigo Assim se Improvisa promovido pelo dançarino e coreógrafo Chefinho Santos e pelo ator e diretor Roberto de Abreu, tem a pretensão de ser um espaço para que os novos, e os velhos artistas conquistenses mostrem seus trabalhos, performances, improvisações, discutam e respirem arte com a classe artística local e o público em geral. Mas será que isto está acontecendo ?!

De início, uma confusão geral fez do Projeto ou da inexperiência dos organizadores, uma afronta ao teatro e ao bom senso. A começar pelas inúmeras gafes cometidas pelo apresentador da noite, que vestido de uma pseudo drag caricata, de barba e cabelos de Morfeu, se insinuava com danças e poses eróticas para a platéia masculina, que atrasada, chegava a toda hora no recinto, saía, chegava, saía, conversava...

A histeria e o despropósito se instalaram por toda noite, a não ser, quando eram substituídos pelo medo e incômodo do público por ser escolhido para uma improvisação no centro do palco. As pessoas assustadas começavam a sair do teatro e as que, coitadas, eram pegas de surpresa, forçadas a ir ao palco e se arriscarem diante de um exercício teatral tão simples e comum a atores, acostumados a fazê-lo.

“A arte e os artistas devem evoluir, pois, caso contrário, só lhes restará regredir”.
E o Festival de talentos, não pára. Num dado momento da noite, o apresentador fez mais uma alusão ao teatro com a pejorativa preconceituosa contida no termo “viado”comparando com ofício do ator, de forma gratuita, descontextualizada e ridícula.
Será que nós, artistas conscientes, vamos continuar alimentando preconceitos na nossa cidade tão “cultural” e homofóbica?!

Há outro elemento que contribui para promover um estado dramático que estimula a criação. Vamos chamá-lo de ética. O ator precisa de ordem, disciplina, e um código de ética, não apenas para as circunstâncias gerais de seu trabalho, mas também, e especialmente, para atingir seus objetivos artísticos. (...) Um ator está sempre sob os olhos do público, exibindo seus melhores atributos, recebendo ovações, aceitando elogios extravagantes, lendo críticas pródigas em louvores - e tudo isto provoca, no ator, uma ânsia incontrolável de ter sua vaidade pessoal constantemente estimulada. Mas se ele restringir-se a esse tipo de incentivo estará sujeito a decair e a tornar-se banal. Uma pessoa séria não se deixaria entreter muito tempo por esse tipo de vida, mas uma pessoa medíocre deixa-se fascinar, corrompe-se e acaba sendo destruída por ele. Eis por que, em nosso mundo do teatro, devemos ser capazes de nos manter sempre sob controle. (...)
 Sua conduta deve ser norteada pelo seguinte princípio: Amem a arte em vocês, e não vocês na arte”

Como se não bastasse, a noite continua com sua programação que ia da exposição exacerbada e meramente efusiva, por parte de alguns, sobre a vida de cada grupo, seus projetos e trabalhos que desenvolvem, além do momento mais esperado da noite:

O anúncio de um novo grupo de teatro na cidade. OHHHHHHHHHHH!!!
Poderia este fato, ser motivo de grande alegria e crescimento para a arte e teatro conquistenses, mas infelizmente, não é.

Quando se tem a pretensão de se formar um Grupo de Teatro deve-se ter em mente alguns objetivos claros a respeito do trabalho a ser desenvolvido, metodologia e planejamentos a serem aplicados, estudos teóricos e práticos sobre a arte teatral, currículo e capacitação profissional dos ministrantes, entre outras coisas. Vale a pena ressaltar, que nesse caso, este grupo está sendo formado sem nenhum dos itens anteriores, dando vazão, entretanto, à falta absoluta de ética profissional e a ausência de maturidade artística, dos envolvidos, criando uma nova geração de “artistas” picaretas sem os caminhos árduos e degraus do trabalho, da técnica, dos estudos, e, sobretudo, da HUMILDADE no teatro e na vida. Nesse caso, não basta simplesmente o dom, o sonho ou o talento para garantir e continuar nessa carreira.

“Não é fácil definir ou analisar o talento. Em geral, ele está oculto nas profundezas, e é difícil evocá-lo. Talento é a feliz combinação de muitas faculdades criadoras numa pessoa, dirigida por sua vontade geradora. A técnica existe, sobretudo, para aqueles que possuem talento e inspiração. Sua função consciente é estimular a criatividade superconsciente. Quanto mais talentoso for o ator, mais ele se preocupará com sua técnica. Em nossa arte é muito perigoso amadurecer rápido demais, sem esforços decididos. (...) O talento pode não ser nada além de uma bela tagarelice.’

Nada contra ao surgimento de novos grupos e artistas, muito pelo contrário. Desde o Grupo de Teatro da UESB que tenho estimulado o surgimento de novos artistas teatrais na cidade, através de um trabalho sério, criterioso e com a aprovação, inclusive, do SATED, que prima por uma arte ética, respeitando o Teatro e os Profissionais que há muito tempo, “ralam,” estudam e lutam por uma arte digna e sem trapaças.

Por que essa ansiedade de geração burra e televisiva que quer colher frutos pecos, tornando-se do nada, a Celebridade Big Brother do Ano, sendo que, sequer alguma semente foi plantada?!

Pelo amor de Dionísio! Acho que estão brincando comigo, aliás, conosco.

SATED está precisando retornar a Conquista URGENTE para evitar anomalias como estas que são frutos da tão organizada e unida classe artística teatral conquistense. Mas será que o nosso mais novo “artista teatral” sabe o que significa a sigla SATED e o que ela implica?!

Parece coisinha de interior mesmo! É tanto que os modelos fotográficos, ex-jornalistas, desconhecidos, filhos dos donos da Loja e afins estão tomando os espaços na mídia televisiva dos atores da cidade. Fazer o que, né?

Infelizmente, toda vez que retorno à Conquista vejo que ela parou no tempo. Os problemas são os mesmos, a arte e cultura continuam as mesmas, os artistas cada vez mais individuais, com as mesmas indagações e idéias revolucionárias dentro das suas propostas cada vez mais desconhecidas ou plagiadas, salvo algumas exceções.

Tenho saudade mesmo é do tempo áureo do teatro conquistense, de Carlos JehovahSônia e Gildásio Leite, das performances inusitadas de Adão e Marcelo, da força de Rose Bispo, das Dionísias Urbanas, este sim, um projeto sério, de estudos e construção de personagens e cenas, promovido pelo Grupo de Teatro da UESB, hoje Caçuá, que inclusive, passaram Tiago, Murilo, Roberto, Adriano, Rafael, e muitos outros que se acharam ou se perderam nos caminhos que levam a esta arte.

Todos que passaram por mim, que comeram e beberam no mesmo prato e taça Dionisíacas, deleitando e chupando nas tetas desse sátiro teatral, fazem parte de uma mesma história, de um ideal artístico iniciado com muita verdade. Por isso, tenho toda a liberdade de falar-lhes quando estão se esquivando deste ideal, a não ser, que prefiram continuar errados, trilhando por caminhos obscuros. Aliás, errar faz parte da aprendizagem, em qualquer setor da vida , e não tira a dignidade de ninguém, porém, o orgulho de se achar perfeito cria uma falsa ilusão de superioridade que não leva ninguém a nada.

Nossa arte só crescerá quando acabarmos de vez com os egos inflamados, a supremacia imatura, as tiranias e máfias peçonhentas entre nós, ou então, assumamos de vez o ringue da individualidade nas ações, sem, portanto, ferir a ética que conduzirá as ações dos mais sensatos.

“Os amadores rejeitam a técnica, numa atitude que não reflete suas convicções conscientes, mas sim, e tão somente uma preguiça desenfreada.(..) De fato, muitos há entre os atores profissionais que jamais modificaram sua atitude amadorística para com a arte de representar.”

Para encerrar esse papo antigo, uma nota: usei nesse texto algumas citações do Mestre Stanislavski, contidas nos seus livros e selecionadas numa edição intitulada, Manual do Ator, traduzido por Álvaro Cabral e Jefferson Luiz Camargo, da editora Martins Fontes. Quem se interessar por uma leitura enriquecedora e quiser conferir mais dos seus ensinamentos do Mestre, é só adquirir, um exemplar, pois já o temos na cidade.

Seria tão bom se os atores começassem a estudar sem precisar fazê-lo só quando estão numa Universidade. Ou já pensaram na Classe Teatral Conquistense toda unida num Projeto de Estudos em Teorias Teatrais ?!  (...)  Pausa Dramática

Enquanto esse dia não chega, continuo acreditando numa arte transformadora, sem as tarjas de um sucesso plastificado e mentiroso das falsas celebridades que se fazem sem o suor e o sangue do trabalho duro e honesto.
A minha arte é o meu trabalho, meu sustento e minha religião, senhores, e isto para mim, é mais que sagrado, por isso, sempre lutarei para que ela seja digna, real, e verdadeira .
E com o Mestre Stanislavski e a saudação ao nosso deus, encerro mais este texto.
Evoéh, Dionísio! Justiça e dignidade a nossa arte!

“Temam os seus admiradores! Aprendam, no devido tempo, a entender e amar a verdade cruel a respeito de si próprios. (...) Falem a respeito de sua arte somente com aqueles que podem lhes dizer a verdade. A maioria dos atores tem medo da verdade, não por serem incapazes se suportá-la mas, porque ela pode destruir,no ator, a fé que ele tem em si próprio.”

Excrementos conquistenses dos artistas teatrais em busca da Fama- Texto de 2003





 Vendo a onda de novos "profissionais" de teatro em Vdc Lost sem formação, sem experiências, sem conhecimento dando aulas, dizendo ser "artistas" e/ou atores melhores, jovens e donos da razão e arrogância, com uma falta absoluta de ética e relação de classe,  republico um dos textos que tocam nessa maldição, um texto de 2003, do MOVAI- Movimento de Valorização do Artista do Interior. 15 anos depois e nada muda! Quando eu falo... Antes de falar de vocês e achar que descobriram a pólvora queridxs, respeitem quem veio antes! Quer dar aula, vá estudar! Quer atuar, vá estudar! Quer dirigir, vá estudar! Vá criar calos nessas mãos! Vá malhar o cavalo, abestadxs!
Vá de retro!

Excrementos conquistenses dos artistas teatrais em busca da Fama

             Aviso aos navegantes que se iniciam. Aula número 13



Estava sentadinho na sala do meu amigo, em Salvador, quando na tela da tv exatamente, no canal da MTV,  passava um make in off da gravação de um clipe da popstar Madonna.
No clipe, ela incorporava  “personagens - ícones” da cultura norte americana que  idolatram Hollywood, beleza, status e fama. Nos quadros, as personagens cantavam a mesma música, passando um pouco da sua trajetória, em busca da fama e da sua imagem ali exposta.

Antes da finalização do clipe a própria Madonna comenta, fora das gravações, sobre o sonho americano de supremacia idealizado por muitos e faz um diferencial interessante quando diz que os realites shows dão às pessoas a sensação de fama conseguida do nada, sem trabalho, estudo ou qualquer empreendimento para alcançá-la. Nesse ponto, ela enfatiza muito a questão do trabalho em prol da conquista, ao contrário da falsa idéia de ascensão  rápida ou forjada  pelo dinheiro, mídia ou soluções mágicas de dinheiro vendidas nos classificados populares.

Fiquei pensado naquele comentário enquanto terminava de ver o clipe pronto. Toda aquela produção diante da nossa protagonista musical, que, diga-se de passagem, tem uma carreira invejável a qualquer artista de renome mundial, e  que “ralou” muito para chegar onde está.
E cá com meus botões, comecei a pensar na minha arte, nos meus desejos e objetivos como artista, nas pessoas que estão a minha volta...
Cheguei à óbvia conclusão, que aqui no nosso terceiro mundinho brasileiro, também se reproduz o sonho americano de poder, e que isto, não se restringe apenas às áreas artísticas.

Para não ser muito prolixo, analisemos a nossa própria cidade, os nossos próprios conhecidos e amigos que fazem tudo por uma pitadinha de fama ou dinheiro.

Até aí, tudo bem que as pessoas tenham ambições, projetos, contanto que não envolvam outras de forma desonesta e nem ultrapasse a ética, que controla as nossas ações.
Mas a recíproca é verdadeira e estou cansado de ver oportunistas da arte cavarem suas carreiras com os méritos de outrem ou usarem a inocência dos outros para se promover.

Tivemos recentemente exemplos aqui no nosso grupo.


O jovem escritor mimado, que para perpetuar sua obra, lança-se como supra-sumo num espetáculo de teatro dando inclusive, créditos para si mesmo, dirigindo, escrevendo, produzindo e atuando, ah,  antes que me esqueça, ele também assina a direção geral do trabalho, que não paga os atores, visto que não se é um grupo-família, e todo mundo pode agregar seus trabalhos amadores à obra. Afinal, foram três diretores na empreitada, sendo um único deles o artista da história. Nossa, o nosso redundante dionísio deve ter no mínimo, duas graduações para tanto empreendimento, pois como sabemos, atuar sem registro profissional é ilegal, imagine, dirigir,  produzir e  enganar?!
Extra, extra, vende-se aqui profissões e carreiras nascidas de um aborto totalmente artaudiano e ilegal.




Sem esquecer, é claro, dos que chegam de fora e discretamente rouba atores alheios  como resquícios de sua carreira brilhante e ética, afinal, quem vem de fora sempre é melhor do que os que aqui estão, e respeito é bom, só para quem é conveniente ou quando se  denuncia ações com estas aqui presentes. Nossa, até rimou!

O mal da nossa city, meus caros, é que os interesses por mais que pareçam coletivos sempre deslancham para o lado pessoal.





Enquanto não respeitarmos o nosso colega de verdade, sempre achando-o bestinha e bonzinho demais para nos denunciar, estaremos criando relações de favores e “vistas grossas” aos  erros  dos mais chegados por amizade, conveniência ou cumplicidade.

Ora, amigos, amigos, negócios à parte. Justiça para todos ou hipocrisia famigerada?!

Mas aqui, na nossa GreenVille tudo é permitido, seduzir atores de outros grupos, não pesquisar e nem trabalhar como se deve, (inclua-se não trabalhar com a formação de atores nos grupos), copiar aulas e metodologias dos mais graduados, usar nomes e referências de  quem  realmente é correto para se promover, pegar atores emprestados dos grupos e incutir em suas cabeças a prostituição por míseros cachês passageiros ou ainda por independência e maioridade adquiridas, errar e não admitir o erro,  sair de grupos ou de contatos com outros artistas fechando todas as portas, pular de companhia pra companhia fazendo sempre merda por anda passa (funh!), pensar nos resultados e não no processo, querer abraçar o mundo com as mãos e subir ao topo sem andar os degraus da escada da vida, mentir, ludibriar, e enganar professores, colegas e  a si próprio para satisfazer os interesses pessoais e o ego, ser ator de si mesmo 24 horas por dia, e principalmente não respeitar os mais velhos, não conhecer antes de criticar e receber os méritos pelos esforços e trabalhos pessoais e coletivos... será que esqueci alguma coisa?!

Se fosse escrever tudo que a nossa cidadezinha e seus pseudos artistas fazem, rs, daria uma lista  daquelas.





Por isso, crianças, fazer teatro é uma descoberta que não é tão inocente assim e  que vocês devem aprender desde cedo, pois o Lobo Mau anda por aí rondado as cestas das Chapeuzinhos Vermelhos indicando os caminhos errados para satisfazer os interesses de quem? Leram a história?! Pois o Caçador  aqui  é a  sua Consciência e só ela poderá salva-lo.

E pra terminar, um conselho deste professor:
(Aproveitem, que ainda não estou vendendo! )

Acreditem  nos valores pessoais de vocês, na família, nos verdadeiros amigos, nos objetivos da vida, e o mais importante: NA VERDADE!

Sem esta, nunca seremos artistas, pessoas, seres humanos inteiros, viveremos sempre na ilusão das nossas carências e necessidades existenciais, sempre pisando nos outros e achando que vivemos num eterno palco de felicidades e ilusões.





Teatro é acima de tudo acreditar em possibilidades, e arte é tudo de bonito que se possa imaginar. Sendo assim, voem em busca dos seus sonhos, crendo numa arte verdadeira, digna e transformadora, pois o nosso mundo não é feito de Madonnas e artistas de televisão bem sucedidos, mas de cidadãos simples que através das reflexões desta, e de tantas outras artes, saberão aonde ir e o que fazer  e,  sobretudo, perceberão que nem tudo nessa vida é o que parece.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

CERCADINHO DE AFETOS No jogo do teatro popular empoderado nos encontros do Proler 2018


CERCADINHO DE AFETOS
 No jogo do teatro popular empoderado nos encontros do Proler 2018



Minha história com o Proler não é de hoje! Em 1996, como aluno do curso de Letras da UESB, participei do meu primeiro encontro. Dois anos depois, agora como Professor de Teatro na mesma universidade, ministrei a oficina “Leitura e Teatro” para professores e pedagogas de Conquista. No final, como resultado, montamos o que seria uma Escola Escolástica de Leitura de freiras inspirados no filme “Mudança de Hábito”,  falamos do poder da leitura e suas inflexões. Consegui túnicas para todas, fiz uma paródia com a música do filme, no ônibus da Salutaris, vindo numa dessas apresentações do “Assassinato do Anão...”, que estava viajando em festivais e cidades do interior paulista, do qual fazia parte. Tenho fotos dessa oficina, vou achar e repostar aqui.

Em 2015, voltei a Vdc Lost e fui convidado a participar do XXIV Encontro de Leitura do Proler, que aconteceu no povoado de Inhobim, onde fiz a oficina: “Jogos Teatrais e Teatro Popular”. Era uma turma de adolescentes que, apesar da apatia típica, gostaram da proposta.

Proler em Inhobim

Cercadinho- Bahia- Visão da nossa sala

Agora em 2018 volto ao XVII Encontro do Proler no povoado de Cercadinho. Como a resposta da oficina anterior fora positiva, eu planejava refaze-la e encerrar com um cordel, mas ao chegar em Cercadinho, vi que era uma turma de crianças e não de adolescentes. No jogo de cintura, literalmente, e no jogo do caatingueiro brincante, adequei e transformei a proposta inicial. Falo isso porque todas as idades podem - e devem -  fazer teatro, mas para cada uma, metodologias e atividades específicas.

Foram três dias de corre corre, energia, energia, energia dos erês, que não acabava mais! A pessoa quer dar oficina para crianças e acha que eles vão ficar quietos o tempo todo?! Fica a dica para os meus ex alunos do curso de Licenciatura em Teatro da Ufba.

Primeiro dia de Oficina

A turma era bastante enérgica, mas super respeitosa. Contei também com o super apoio da professora Shirley Nascimento, que me auxiliou. Os erês, às vezes, querem nos fazer de besta, querem brincar, correr, pular, ser feliz... e eu deixo! Entro no jogo, afinal, eram só três dias -  o lado benigno tem que aflorar primeiro, e a doçura não significa falta de rigor, ainda mais no teatro - . Fiz até umas posições de ioga com eles e expliquei que na vida, assim como no teatro ou na escola, tem hora pra tudo. Sou calmo, de boa, mas sempre que precisa, fico arretado... Desculpem o linguajar popular, mas quem fala aqui é mais o caatingueiro brincante que o acadêmico chato, e a poesia e cultura do sertão me serão de mais valia que qualquer outra coisa.

Segundo dia da Oficina

Antes do teatro
Depois do teatro


Foi linda a entrega deles! Trabalhei com Jogos Teatrais, leitura e inflexão, o jogo das caixinhas (assim que eu chamo) de improvisação, a máscara neutra para chegar na máscara dell’arte, para chegar no cordel. Ufa! Ceis pensa que “ensinar” ou experienciar arte é fácil?!

Exercício com as máscaras neutras

Foto séria que vai pro relatório, rs.


Ações cotidianas com as máscaras

Relatório dos participantes. Um desenho sobre o que mais gostou ou lembra a oficina de teatro


Então chega o dia de mostrarmos o resultado da Oficina para as pessoas e público no dia de encerramento. Éramos o quinto grupo a se apresentar.
Reunimos a turma numa sala e fizemos uma roda de concentração. Expliquei a eles que este momento de roda e concentração é importante quando se vai fazer uma apresentação, e conclui explicando o significado da expressão Merda em Teatro, e desejamos Merda a todos!


Heitor e seu desenho. Uau ficou lindo!

A apresentação foi quase uma aula pública, pois escolhemos exercícios que tínhamos feitos no decorrer da Oficina. Acredito que todo resultado artístico deve fazer parte do processo de trabalho, não meramente focado num produto ou resultado. Há uma febre das escolas em Conquista, e em geral, de fazer aquela apresentação de final de ano para os pais verem, com objetivos desconectados da prática e vivência dos participantes. Tem cada coisa que eu vejo...

Máscara, caixinha, Shirley e eu!

Ganhar um "eu te amo" não tem preço!

Fazer teatro é algo muito sério, expor uma criança, um adolescente ou até um adulto em cena exige muita responsabilidade e cuidado. 
Decidimos juntos o que iríamos apresentar e quem o faria, já que na oficina todos puderam experienciar tudo o que fizemos, individualmente, em dupla, em trio, ou em grupo, e tínhamos pouco tempo diante de toda a programação do encerramento. Teve tudo e até apareceu um velho por lá!  Cantamos as cantigas populares do repertório do caatingueiro (Caçuá de Teatro 20 anos) e enceramos com o Cordel do Pavão Misterioso.

Segundo Pietra eu e Shirley em cena!


Foi lindo, calmo, tranquilo, sem cobranças, no jogo infantil da alegria e da troca. Viva os erês!

Paisagem Típica da Suíça Bahiana

Esses dias em Cercadinho, a viagem saindo de Vdc Lost para a comunidade, a paisagem tipicamente seca de caatinga, as conversas com a equipe e todxs xs oficineirxs, as cantigas, a visita ao flamboyant mostram que devemos sair das nossas bolhas e estar com as pessoas. A arte, a leitura, o teatro devem ir ao encontro do povo. Por isso que faço Teatro Popular!

O Flamboyant e a nossa cantoria

O Proler tem uma missão incrível e muitos saíram afetados positivamente com os encontros dessa edição que reverberarão em nosso corpo - memória - discurso por muito tempo.

Em casa, encontrei o bilhete de uma mãe que agradecia pela alegria do filho ao chegar em casa após a oficina, só que ele não poderia ir no último dia, pois tinha compromisso marcado na cidade.

Pé de tamarino em Cercadinho. Quem gosta?!

Que possamos pensar cada vez mais numa arte destinada a todos! Uma arte acessível e transformadora para mudar essa comunidade, cidade, estado, país.
Só a arte e a educação conseguem nos libertar desse sistema aprisionador e dar fissuras de respiração e transformação nessa nossa Matrix louca e luta cotidiana pela sobrevivência.

Que reconheçamos a nossa identidade e força, e assumamos a nossa caatinga e valores. Pois de Suíça Bahiana estamos cansados!

"Vamos deixar de lado a Revolução Francesa e a Soviética, para descobrir a feijoada, o carnaval, o frevo. Nossa cultura é a macumba, não a ópera." Glauber Rocha

Saíam das suas bolhas, conquistenses, conheçam sua cidade, a zona rural, as periferias, os artistas locais.  Viver nessa cidade tão antagônica e diversa se achando  “a última bolacha (importada) do pacote”, além de ser cafona, está fora de moda!


Obrigado, Professora Heleusa Câmara, pelo carinho e energia! Tem pessoas que são entidades e estão em outro plano de energia! Uau!
Gal Novato Dona Heleusa Câmara e eu!

A equipe da Escola Rui Barbosa, a amiga Nailde, Fernando, Iracema, as meninas da cozinha: Leninha, Luzia e Cristina (que comida foi aquela, que tempero!!) A pessoa é da cultura popular e cultura popular sem comida não existe! Agradeci pessoalmente, pois temos o hábito de quando um serviço é ruim criticar, mas quando é em excelência, não elogiamos! Meninas, vocês arrasaram!

Equipe da Escola Rui Barbos a e equipe do Proler


Momento lindo homenagem as pessoas que contribuíram com a história da comunidade.
Nessa escola eu acredito!

Aos encontros com tanta gente linda e porreta, Paula Ferreira, Claudia Ferraz, Gal Novato, Keu Souza, Ebenilde Araujo, Jeane Marie, e todxs que religaram conosco. Gal Novato, quando eu crescer, quero ser igual a você! Só o poder da ancestralidade! Axé!
A Cris Leilane e Alexsandra Santos, companheiras do Núcleo Pedagógico da Smed. A jornalista gata garota Joana Rocha.
Kêu Souza na Abertura do Desfile de Gal- Poder feminino e ancestral. Axé!

Gal Novato e o Muso do Proler 2018 Jefferson!

Os erês, eu e Shirley. Foto certinha com nós não cola , rs.

E a minha turminha linda de erês que tornou esses dias mais bonitos e alegres.
E para finalizar essa escrita, a imagem que vem é a da apresentação que encerrou o encontro da “Dança da Saia”, com a professora Marli Campos e alunos. Energia pura, presença, entrega, quando uma professora sai do seu papel “tradicional” e assume outros papéis para estimular e celebrar com seus alunos e educandos. Lindo de ver! Muito forte e potente! Nisso em que eu acredito! Me representa! Arrepiou! Para esses professores e pedagogos aprenderem a se jogar! Saiam das salas de aula, dos escritórios e gabinetes fechados, queridxs, venham pra roda sambar com nós!


A Dança da Saia com a professora Marli Campos e a meninada.
Energia pura! Irradiados!

Toc, toc!

Axé, evoé e merda! Só a arte salva!
Viva a leitura e o teatro empoderadores!

PS: Estarei em cartaz com o espetáculo “Entre a Cruz, a Espada e a Estrada- Como nasce um Artista Sertanejo” nos dias 05 e 06 de outubro, às 20 horas, no Camillo de Jesus Lima! Só serão duas apresentações. Se quiserem conhecer mais um tiquim desse caatingueiro sonhador, vão lá religar conosco! Precisamos nos unir e transformar essa cidade com cultura e arte!

Foto- Luiz Eduardo Fiuza

As fotos dessa postagem foram de várias pessoas que contribuíram durante a programação do Proler 2018, que mandaram para mim. Obrigado. Misturou tudo. Desculpe. Tem foto minha, de Shirley, Jeanne, Ebenilde, Paula e de uma professora de Cercadinho que tirou também.