terça-feira, 19 de julho de 2016

Desnudando Mortícia! Com quantxs personagens se faz um artista educadxr?! Experienciando encantamentos, a magia do encontro e do amor

Desnudando Mortícia!
Com quantxs personagens se faz um artista educadxr?!
          Experienciando encantamentos, a magia do encontro e do amor 


Fui convidado para participar da Formação dos Coordenadores Escolares, que aconteceu em Vitória da Conquista, no dia 15 de julho, e, como não podia deixar de ser, a arte da qual comungo estaria comigo nesta abordagem e experiência. O tema do encontro seria Formação Continuada e pensei em várias formas de desdobrar, assim como se desfaz um origami, tal conteúdo. Como é de rotina em minha práxis o uso da estratégia do drama, conhecida como “teacher in role”, que pode ser traduzida por “professor personagem” ou “professor no papel”, pensei em que persona e seu universo poderiam me acudir nessa aparição vaporosa, e assim, com a ajuda dos amigos pela internet, cheguei na escolha de Mortícia para este encantamento e atualização bruxesca e pedagógica.


“Uma bruxa debate sobre a Formação Continuada com Coordenadores Escolares em Conquista, como pode isso?! O tema Formação Continuada tem sido uma frequente em encontros com profissionais da educação no país e Conquista entra também nessa discussão, e pelo visto, até Mortícia, numa onda crescente de novos bruxos, na literatura e no cinema, não escapou de se atualizar! Como que os Profissionais da Educação reagirão as peripécias dessa bruxa tão simpática?!” (Trecho do Release e publicação sobre a Intervenção).


Poderia escrever um relato maior ou um artigo mais elaborado sobre os aspectos que me atravessaram nesse dia, ou que se desdobraram do teacher in role na minha trajetória e na educação. Poderia falar mais sobre a questão da formação continuada e a ênfase acadêmica e profissional exacerbada na informação, (sem a experiência viva), frente aos modismos políticos, tecnológicos, tecnicistas, pós acadêmicos titulares; ou ainda, sobre a necessidade de qualificação em educação e artes, mas prefiro me ater as sensações que senti neste dia, num quase diário de bordo teatral, e nas falas dos partícipes nessa troca.



“O curso de formação de coordenadores é um programa de formação permanente dos educadores, que tem como diferencial, a criação de espaços de discussão nos quais os coordenadores refletem sua prática no cotidiano escolar e, nessa prática, projetam suas intervenções e futuras ações. Para isso, existe a presença constantes de profissionais de áreas especificas para construção desse momento e, nesse último encontro, tivemos o privilégio de contar com a sensibilidade, ousadia e criatividade da persona Mortiça, do educador e professor de teatro Marcelo Benigno, que enfeitiçou e encantou a todos com diferentes linguagens artísticas, estimulando a formação estética do coordenador na dinâmica essencial para poder estar com os professores e alunos, percebendo, ouvindo, vendo suas múltiplas expressões. A proposta pensada para essa formação traçou um diálogo entre a educação e arte como condição sine qua nom a reflexão sobre a função da arte no processo educativo.” 
Elisangela Aguiar- Coordenadora Pedagógica- SMED


Véspera da apresentação- Dia 14/07. Não consigo dormir, estou terminando de organizar os slides e material para o encontro. Nesta invocação clamei por alguns coligadxs encantadxs: Roberto Sidnei, Paulo Freire, Jorge Larrosa, Gabriel Perissé, Carlos Drummond de Andrade, Dorothy Heathcote, J. K. Rowling... e tantxs outrxs nesta reza invocatória de afetos. À tarde fui pegar o scarpin que levei para colocar a tachinha e pintar, comprar cola de cílios e unhas postiças, (que sempre secam) e um novo par de brincos negros para a convidada do dia. (Ela estava querendo um brinco novo que vi na rua).  Continua o corre-corre de produção.


Uma semana antes- Dia 06/07- Produção rotineira de atuador. Lavar figurino, arrumar peruca, terminar release e encaminhar, elencar aspectos relevantes para a elaboração da fala, reler livros, separar músicas...

Dia 15/07- Quatro horas da manhã- Dou uma cochilada e acordo antes das seis para começar o processo de caracterização. Banho longo pra acordar, “tucking e taping” pra fazer, ou num bom linguajar “aquendar a neca” mesmo. Pensa que é fácil?! Make pronta, perfume em dia e por último, e depois tudo feito, colar as unhas. Chega a carona providencial, e sempre bem-vinda, da querida e atenciosa Ellen Aguiar, e lá vamos nós!! Chegamos ao destino. Fico no carro esperando o momento exato para entrar. Momento necessário para o atuador concentrar. E quando começa a performance?! Segundo Rozilda Thér, outra querida da Educação, muito antes do que se pensa:


“Quando você chegou na escola, eu estava passando de carro, logo percebi um engarrafamento, olhei pela janela do carro e vi uma "dama" sendo acompanhada por alguém, que ao seu lado segurava um guarda-chuva. Pensei, deve ser alguma autoridade que veio palestrar em algum evento importante. Depois que vi as fotos no face lembrei desse episódio. Vou sorrir até 2050. Você é o máximo. Parabéns flor exótica, mimosa, radiante... Flor humana.”

Começa então o desnudamento. Pessoa e persona se fundem, se TRANSformam! Gosto quando desmistificamos o processo criativo para o público, e nesse dia, me deixei afetar por esta meta aula/apresentação/cênica/performática, lembrando muitas das que compartilhei na Escola de Teatro da Ufba, quando professor, no curso de Licenciatura em Teatro, na minha passagem por lá!

Para nós das artes da cena que estamos habituados nessa rotina de vestir, produzir personagens e ações, tudo acontece de forma natural, mas, às vezes, não percebemos as sutilezas de como a nossa rotina e produtos chegam aos mais diferentes públicos. Nesse dia, o que mais me chamou a atenção foi como devemos nos reencantar, diariamente, com a nossa prática, para poder encantar e afetar outrem.


E entramos, eu e Mortícia juntxs nessa empreitada. Mortícia está comigo há quase 20 anos e temos bastante intimidade. Apesar de ser uma performance educacional, desculpe o pleonasmo redundante nesse momento, foi necessário uma parte introdutória com slides para contextualizar o fazer e o tema proposto. A cada lâmina, a cada pensamento ou poema enunciados e projetados, a participação dos professorxs/coordenadorxs foi intensa e plena! Energia transmutada para o bem, benignx!

Num dado momento eu parei e me coloquei como meu próprio experimento performático. Como numa analepse ou flashback cinematográfico parei para assistir a persona, congelei a cena e pude ver o olhar e a plenitude de cada um ali. Sem scripts pré-estabelecidos e percebendo a energia trocada e os limites evocados naquela experiência entre o professor e o atuador, o didático e o artístico, o pedagógico e o transgressor, senti a necessidade de desnudar da persona e apoderar mais o discurso com minha prática/arte/vida. Antes da última lâmina, o cavalo se revela aos presentes, tirando a peruca que caracteriza a persona, mostrando o miolo do clown num momento brechtiano mágico. Não faço isso usualmente e nem gosto, pois como num beijo quíntuplo, de confiança, intimidade e reconhecimento sagrado da saudação wiccana “Blessed Be”- que não deve oferecido a qualquer um- determinados gestos, revelações cênicas, ou religiosas devem ser guardadas! Prezo muito pela integridade de minhas personas e da liturgia ritualística que as mantem vivas. Mas como a ocasião era mais que didática, o gesto de fez potente, necessário e educativo. Diante das ciências duras, de um mundo enquadrado e conservador, a arte e a educação devem sempre abrir caminhos para o conhecimento, a tolerância, o respeito e a diversidade!

  Link do Registro feito por Fabiana Araújo que seria foto mas encantou-se e virou vídeo!
Tomado então, pela persona novamente, deixo o recinto e finalizo a minha participação!

O que fica desse encontro é uma experiência bastante pessoal para quem participou dela. "O contato com a arte é pessoal, único e intransferível. A formação estética do professor requer atividades que extrapolem a leitura teórica." Gabriel Perissé. 

Fico feliz em poder ter contribuído e ver que os profissionais de educação em Conquista, têm se mostrado abertos e sensíveis a arte, às possibilidades de crescimento e a uma educação direcionada a sua comunidade de maneira cuidadosa e dedicada.




Que o encantamento com a arte, o afeto e cuidado pelo encontro com o outro sejam diários, e que possamos sempre religar com as coisas positivas e mágicas que estimulam o crescimento do ser humano, através de experiências transformadoras e inesquecíveis!

E nos relatos reverberados dxs que participaram comigo neste dia, fechamos este ciclo com a energia vital do amor, da inspiração e da vida. Foi lindo! Agradeço a todxs que participaram e colaboram para este encontro! Axé, Evoé e Merda sempre pra nós. Que nos desnudemos sempre para nos vestir de poesia, arte, cultura e educação potencializadoras!

"Conquista: performance de Mortícia encanta coordenadores escolares"           [ http://www.blogdaresenhageral.com.br/tag/morticia-adams/ ]


“A Formação Pedagógica para Coordenadores, proposta pela SMED em Conquista, teve finalmente a participação de um profissional sensível e “encantado". Marcelo Benigno fez uma abordagem sobre a Formação Continuada centrada na figura do professor, com sua PERSONA magnífica e grandiosa “MORTICIA”, que através da ARTE nos levou a reavaliar a nossa prática pedagógica e as atitudes que envolvem os profissionais da educação.  Nos fez e faz refletir sobre a magia de trocar saberes através da prática do encantamento e da pesquisa, reafirmar a nossa responsabilidade e dedicação enquanto educador, nos levando a buscar novas formas de encantamento para aprimorar as nossas práticas no cotidiano escolar, reencantando a cada dia! Um dia de bruxa para nos inspirar!" Fabiana Araújo- Professora de Teatro e Musicista

"Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros." Paulo Freire


“A minha manhã hoje foi com ela que me encantou com a beleza das suas mãos, unhas, meias, lingerie, vestido de festa, vestido de palavras que me levou a refletir: o importante não é só fazer diversas formações, o importante é sobre tudo, a experiênciação, e o investimento na arte que transforma!” Jeane Marie- Atriz, Educadora e Produtora Cultural

"Os professores todos, independentemente da disciplina que se prepararam para ministrar, ganhariam (e com eles, seus alunos) com uma autoeducação que desse especial atenção à dimensão estética da cultura e da vida." Gabriel Perissé

“Show de talento e profissionalismo! Uma aula dinâmica que uniu a seriedade de uma pesquisa à mediação da aprendizagem por meio da arte. Somos gratas e felizes por tê-lo.” Jaqueline Carvalho- Coordenadora Pedagógica - SMED

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. (...) A informação não é experiência.” Jorge Larrosa


PS: As fotos que ilustram esta postagem foram clicadas por Ellen Aguiar, Fabiana Araújo e Jeane Marie, um agradecimento especial a elas que gentilmente registraram este momento; a Nubia Nadja, eterna inspiração e gratidão; a Fabio Sena, Daniel Silva, Mateus Novais e aos amigos virtuais que compartilharam e divulgaram em suas páginas e blogs eletrônicos. Na atualização moderna do corvo ou pombo correio, vamos nos configur@r sem se contamin@r! Agradecidx!

terça-feira, 17 de maio de 2016

“MUNDO ADENTRO VIDA AFORA” Retrospectos do Curso de Extensão HomoEros e da Anatomia do Fauno em mim!

Terminou neste fim de semana o Curso de Extensão HomoEros promovido pelo Coletivo do Anatomia do Fauno e pela SP Escola de Teatro.
Programação do Curso de Extensão Homo Eros.
Durante doze encontros, realizados entre os meses de abril e maio, muitas leituras, debates, mesas sobre o universo da diversidade, do gênero, da performance, teatro, literatura, arte, cinema e cultura queer e gay, permearam as reuniões, buscando reflexões e pontos de apoio ou linhas de fuga para partidas e proposições que desenhassem um novo cenário ou cena a ser investida e exposta mais e mais!

Danilo Patzdorf  e sua bomba relógio de gozo.
A programação foi extensa e com um público bastante diverso, de palestrantes a participantes, para ser desdobrada para outros tantos encontros e debates, passando pelo relógio bomba de Danilo Patzdorf – “Um mapeamento da teoria queer”; à aula rememorada no discurso e prática do professor e diretor do TUSP, Ferdinando Martins – “Teatro e Sexualidade em São Paulo”. Seguimos com Alexandre Rabelo, dramatugista do “Anatomia”, com “Corpo, imagem e som na construção narrativa” já introduzido anteriormente, para encontrar com Rafael Guerche (diretor de “Meninos também amam”), Paulo Arcuri (diretor de “Dizer e não pedir segredo” e “Orgia”) e um encontro de 19 anos depois do “Assassinato do Anão do Caralho Grande” 1997-1998, dirigido por Marco Antônio Rodrigues, com direção musical premiada de Dagoberto Feliz (diretor de “Cabaré Falocrático”) nessa “Homoafetividade e Homoerotismo no Teatro, buscando as peças ”irmãs” num possível catálogo de peças queer, de diversidade ou gênero e afins na capital paulistana.

Prof. Ferdinando Martins – “Teatro e Sexualidade em São Paulo."

“Homoafetividade e Homoerotismo no Teatro."

Continuando com a extensão nos transformamos com “A representação de transgêneros no teatro” com a fala transmutada de Dodi Leal, seguida de Luiz Fernando Lubi (Grupo XIX de Teatro) e Cecília Schucman ((Im)Pertinente Trupe ConTrastes- Godofredo & Alice) respingando na produção fora de São Paulo como em Recife e Salvador nas minhas conexões imediatas com minhas labutas e andanças com o teatro de grupo no interior da Bahia ou em Jequié, no trabalho do Grupo de Pesquisa Gap-Motus - Grupo de Ações Performativas Motus,  do querido amigo Aroldo Fernandes, reverberando outros nichos de ação fora do umbigo paulistano e carioca ao qual frequentemente se fala.

Alexandre Rabelo mediando a mesa "A representação de transgêneros no teatro"
com Dodi Leal, Luiz Fernando Lubi e Cecília Schucman.

E entre tantas “Cartografias do cinema LGBT” com Lufe Steffen, Rodrigo Gerace, perdemos Christian Petermann numa despedida sem roteiro. Vestimos utopias e tiramos os figurinos com os Profissionais da Anatomia do Fauno e descontruímos “o corpo para além gêneros” com o Fauno Mor Marcelo D’Avilla, culminando numa performance prática dentro e fora da SP Escola e na Praça Roosevelt.

Depois de tanta teoria, o corpo pedia ação e movimento, pois resignificar o que se troca se torna essencial em tempos de ressarcimentos ideológicos e golpes políticos num país ainda tão afoito ao diferente, ao que foge à regra e ao padrão.

Dia de Vestir Utopias com a Equipe Visual e de Arte de Anatomia do Fauno.

Pensamos no espaço da Rua como mote e criamos situações, roteiros e cenas para uma possível dramaturgia em espaços urbanos onde o que permeava o universo de cada participante, em algum momento, tomasse forma e vida, performando, filmando, registrando de alguma forma, além dos seus extratos e memória. Marcelo Denny trouxe seu livrão ambiência de imagens que estimulou a obra do fauno, deleitando-nos com centenas de imagens e o requinte de um artista visual para a cena da performance-espetáculo em cartaz.

A atitude do Coletivo do Anatomia em propor um desdobramento da obra, neste Curso de Extensão, não como mera contrapartida de sua temporada,(já falei sobre a potencia desse trabalho aqui no blog: 
http://marcelobenigno.blogspot.com.br/2016/04/sem-teorizar-anatomia-do-fauno-uma_16.html) e o acolhimento da SP Escola de Teatro são plausíveis e necessárias!

Vivemos num lugar onde pouco se discute os processos criativos das obras artísticas (ou não), e onde se pouco estuda e pesquisa a fundo para contextualizar a prática de cada um. Em se tratando da área das artes da cena e performativas, ligadas as áreas do conhecimento, tudo se amplia e qualquer um bem-aventurado se torna um expert da noite pro dia, se intitulando “artista”, “performer” ou “artista pesquisador”. Como se diz lá na Bahia, tem que comer muito arroz com feijão para se tornar um verdadeiro profissional das artes ou "artista" nesse país e sofrer ainda muitos bons bocados e anos de janela para algum mérito conquistado com muito suor e sangue. Há um excesso de teoria sem prática que tenta subjugar vivencias ou uma normose acadêmica afetada de meritocracia produtivista que não serve pra nada! Falta engajamento político, artístico e social e numa atual crise, onde performar e atuar na rua, expondo sua opinião pode custar uma perseguição e até sua própria integridade, viver e performar tornou-se algo com um preço bastante caro e perigoso. Quem está disposto a pagar?! Num país que se diz laico, de liberdade de opinião manipulada, arte cassada, Ministério da Cultura extinto, o que se torna importante e urgente, hoje?!

"Cartografias do Cinema LGBT." Marcelo Denny, Alexandre Rabelo, Christian Petermann, Lufe Steffen.
Despedida sem roteiro de Petermann.

A provocação dada no Curso de Extensão é para somarmos os possíveis ecos para que a discussão e ações não se estanquem e saiam das paredes das salas de ensaio, das universidades e escolas, das teses mofadas em arquivos para a prática das ruas, dos projetos e outros coletivos espalhados por este Brasil, que é tão grande, tão diferente e igual.

Material de Divulgação da Temporada.

A violência brutal que sofre diariamente pessoas trans, gays, lésbicas, mulheres e todas as minorias e todxs aquelxs que não se enquadram nesse padrão heteronormativo judaico cristão brasileiro é assustadora, e não é cena, assim como a crescente onda de conservadorismo e ataque ao que se é diferente da opinião e costumes alheios. Por isso tornar a performance, o teatro e a arte mais reais e presentes na vida das pessoas, transformando-as, torna se imprescindível!!

Antes que tudo isso sucumba e acabe com as nossas forças e ideais, gostaria de agradecer a Marcelo Denny, Marcelo D’Avilla e a Alexandre Rabelo (que segurou o tranco o tempo todo), a meus colegxs de encontros, aos participantes das mesas e a SP Escola de Teatro por essa troca incrível, potente e necessária. Precisamos instrumentalizar o nosso discurso de conhecimento e prática! Precisamos acreditar na força da arte, da cultura e da educação! Precisamos não parar!

Espero que possamos ainda continuar nessa troca, e que a Anatomia do Fauno e esta discussão voltem logo a cartaz para dar voz a tantos corpos e discursos de urgente performance e ação!

Meu abraço e xero a todxs!

Axé, Evoé e merda! Só a arte salva!

“Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, meu tesouro foi confiado a vocês!
Consegui apagar do meu espírito toda a esperança humana. Para estrangular toda alegria, dei o bote surdo da fera. Chamei os carrascos para, morrendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei os flagelos para sufocar-me com a areia, o sangue. A desgraça foi meu Deus. Deitei na lama. Sequei no ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o medonho riso do idiota.
E ultimamente, estando quase ao ponto de dar a minha última nota falsa!, pensei procurar a chave do antigo festim, onde reencontrarei talvez o apetite.
A caridade é esta chave. – Esta inspiração prova que sonhei.”
“Uma Temporada no Inferno”, Capt 1 – Uma Estadia no Inferno, Arthur Rimbaud.

PS: As fotos nesta postagem foram compartilhadas das redes sociais dos amigos e participantes do Laboratório HomoEros.

"Mundo adentro vida afora" é o título da obra do dramaturgo e escritor Antonio Bivar. http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=638453&ID=526490
http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=915535

sábado, 16 de abril de 2016

SEM TEORIZAR! ANATOMIA DO FAUNO: UMA EXPERIÊNCIA PRA SER VIVIDA SEM FIRULAS!



Assisti, sábado passado, na SP Escola de Teatro, a reestreia do espetáculo/performance Anatomia do Fauno dirigido por Marcelo D’Avilla e Marcelo Denny, e até agora estava pensando numa forma de fluir sobre. Quando assistimos algo potente, (pelo menos acontece comigo e alguns amigos) tentamos estabelecer conexões com as nossas leituras, citações e atravessamentos para facilitar a apreciação e fruição estética; ou vislumbrar os aspectos na produção artística; assim como, ver a obra de um viés bastante pessoal, como sendo nós, os autores da obra etc e tal; ou simplesmente escrever ou comentar livremente sem referências e amarras. Já aviso de antemão, que nesta tentativa de escrita poderá ocorrer essas linhas de fuga, em maior ou menor grau, mas que não conseguirá captar toda a plenitude desse acontecimento cênico que aqui se configura como EXPERIÊNCIA VIVA E LATENTE, e como tal, experiência não é conhecimento, (olha eu já buscando o meu atravessador, rs, salve Larrosa!) é vivencia, contato, cheiro, sensação, imagens que a ANATOMIA nos presenteia sem medo de orgasmos múltiplos ou repressão.

O trabalho do coletivo debate, de várias formas, um possível perfil de um homoerotismo contemporâneo e urbano, inspirados na obra de Rimbaud, na mitologia do Fauno e nesse universo gay e queer. Constituído como performance, mas estabelecido como espetáculo, a experiência se hibridiza das duas linguagens potentes para nos presentear, e trepa promiscuamente com ambas.

Nesse dia, numa plateia lotada e numerosa, formada em grande parte por homens, na sua maioria, gays, o palco vira espelho da realidade vivida por muitos ali, naquele quase meta teatro /performance da vida real. As imagens são lindas e oferece a plateia várias sensações.


No início, um prólogo nos é apresentado através de um filme, que conta “a história” do fauno que dará andamento a trama/cena/vivencia. Essa primeira parte, se configura numa apresentação desse sátiro mitológico, (com cenas belíssimas de caracterização do ser, atenção especial para o trabalho de Marcelo D’Avilla como Fauno Mor,) e sua entrada na cidade. Nesse ato você encontra um banquete de situações homoeróticas que norteiam o universo desse homem metropolitano, em busca de saciar os seus instintos mais primitivos. Há um tempo bastante dilatado nesse primeiro momento, com intervenções na tela de imagens, que às vezes, soam pedagogicamente e rubricam o que na ação já é muito forte e explicito!

Muitas imagens potentes que retratam esse universo gay aparecem em cena, desde a pegação, baladas, internet e a vida desse ser (des)constituído vem à tona, seguidas das possíveis consequências de uma vida desenfreada.

Fico imaginando como deve ter sido rico o processo de pesquisa e criação junto ao elenco em tantas situações vivenciadas por ele e por tantos. Um salve ou dedilhar de dedos para o dramaturgismo de Alexandre Rabelo, a direção de Denny e D'Avilla, a cenografia assinada coletivamente e a fotografia de Hélio Beltrânio. Uau!!


Sem palavras e até sem roupas, mas com muitos gemidos e sons, o elenco formando por mais de 30 performers, segue a formatação de um perfil gay padronizado, (ora branco demais, ora malhado, ora barbudo...) exceto pela presença dos performers Felipe Ferreira e Veniccio Barbosa (pra citar só dois exemplos) que rouba o foco e agrega discurso, qualidade e força a performance, por justamente quebrar com um padrão de beleza hegemônico imposto pelo gueto a qual estão inseridos e vistos nos catálogos virtuais e nas baladas “tops” paulistanas. Se a configuração do elenco fosse mais variada e mista, certamente daria outras leituras, com performers mais velhos, de outras etnias, ampliando o cosmo de relação e relacionados. Viva a diversidade das escolhas e discursos!


Depois de um primeiro ato escuro, lamacento e bem paulistano, entra o segundo apelidado de "Utopia", com a força brincante da festa para celebrar, não o sexo, a libido, mas o corpo e a vida! Aí me encontrei na felicidade brincante sem as culpas impostas por todxs, pois na brincadeira e no jogo perdemos qualquer tipo de rótulo e todxs somos iguais, sem tarjas e nem códigos. Esta parte é mais fluída, contagiante e colorida, mas não se enganem, muito ritualista e na tentativa de trazer de volta o fauno descaracterizado e perdido na selva de pedras.


Aviso aos Cyber Navegantes: Este trabalho é para ser visto sem nenhuma amarra, seja de preconceito, seja acadêmica, teórica, moral ou religiosa... A experiência ali proposta é pra ser vivenciada e talvez refletida, não somente como uma questão de gueto e gênero, mas, sobretudo, como uma questão ancestral e ritualística do fauno e sua descaracterização, frente a uma modernidade líquida e globalizada a qual encontramos nas grandes capitais. O espelho que reflete pode ampliar ou projetar a plateia dentro das imagens ali apresentadas, e num exercício voyeur, observar a plateia e suas relações com o que é exposto, sem pudores, pode ser uma opção bastante interessante também.


Todxs temos o nosso fauno, com suas especificações, vivências e sotaques, preso ou solto, domado ou catequizado, romântico ou sacana, monogâmico ou plural...

Acho um desafio fazer um trabalho desse, sobretudo, com um elenco numeroso, produção teatral constante e específica sem nenhum tipo de ajuda financeira ou patrocínio! Além de corajoso o elenco é, sem dúvida, a causa maior do trabalho que literalmente, acaba sendo a oração, confessório e festa dos envolvidxs nesta experiência catártica transformadora! Sem teorizar, o que há para se ver e acontecer depende unicamente dele! Não podia deixar de mencionar a presença da mulher em cena, representada por uma única performer do sexo feminino, Camilla Ferreira, que entra para mudar o rumo da prosa e direcionar o nosso olhar! (Tá vendo como é difícil falar sem falar demais?!)


Nesta punheta pós gozo deixo aqui as observações ou linhas de fuga teóricas para só apreciar este acontecimento visceral, visual e corajoso na terra Sampã, como diz o pessoal do Oficina. Numa crescente onda careta, conservadora e capitalista no país, Anatomia do Fauno, de sua forma, se configura num protesto dos corpos desse tempo! Há tanto brigamos por igualdade, liberdade e arte e pouco fazemos! Que sejamos mais politizados na defesa daquilo que acreditamos!

Preciso ver novamente o trabalho e deixar as amarras em casa, pois este sátiro que vos escreve também vem matando o seu fauno para tentar sobreviver na capital das oportunidades. Por isso a necessidade de uma experiência que possa manumitir a nossa ancestralidade e rito, junto aquilo que acreditamos, se faz urgente e necessário, a cada dia!


E como tudo na vida acaba, a Matrix chama de volta a Nave Xuxa os seus ciborgues tripulantes, numa espécie de “deus ex machina gay contemporânea", causando em nós, um coito interrompido como numa trepada rápida marcada por aplicativo ou a sensação da busca por alguém que nunca chega e nunca acaba, e num Strike a Pose finale, somem todxs, de repente, no ar. Beijinho, beijinho, tchau, tchau!!

Vida longa ao(s) Fauno(s)! Que dessa experiência cada um tire o seu prazer, culpa ou libertação e continue a se formar nas relações com outrem, nos afetos, no amor, no sexo, que se juntam numa amálgama a nós criar, diariamente!

Merda, Evoé e Àse! Só a arte salva!


PS: As imagens desbundes que ilustram este texto são do fauno fotógrafo Hélio Beltrânio.

Serviço:
Anatomia do Fauno está em cartaz na SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt — Sala R1
De 9 de abril a 16 de maio. Sábados às 23h e domingos às 19h.                                                               Duração: 100 min. Classificação: 18 anos. R$ 40