sexta-feira, 22 de agosto de 2014

RELEMBRAR É VIVER!!! TEXTOS, ARTIGOS, PERFORMANCES E MOBILIZAÇÕES NA R1-UFBA



Nossa, bateu uma nostalgia agora, verificando no baú dos textos e artigos que escrevi durante a graduação e a minha passagem pela R1- Residência Universitária da Ufba- no Corredor da Vitória, em Salvador, frente a tantos problemas da assistência estudantil, das condições da casa, das relações de gênero e diversidade, vejo o quanto questionar e lutar pelo seu espaço e direito valem a pena!

Compartilho este com vcs que tem tudo a ver COM AS ELEIÇÕES!!

Postei aqui nas carreiras para compartilhar com os amigos pelo Caruru da Diversidade do GGR.
Valeu Grupo Gay Das Residências por possibilitar este momento e viagem!!

Vamos que vamos! Quem não leu, leia e comente! rs.
Relembrar é viver!!!
Prometo arrumar um tempo para postar os outros e os que foram publicados em jornais e na G Magazine também.

Ah, e só pra contextualizar e atualizar este post, morei recentemente na Residencia  Estudantil da UNICAMP como aluno do mestrado. Lá pode! Comentários? Outro nível de Grampoula!! Ai... ai...


INDEPENDÊNCIA OU MORTE?!
RESIDENTE TAMBÉM É GENTE! BANHO QUENTE JÁ!
ELEIÇÕES 2006-VOTA BRASIL
Por Marcelo Benigno*



Acordei hoje sob o forte som da banda marcial e dos gritos de comando das tropas militares que abriam as comemorações do 7 de Setembro, em Salvador, justamente em frente a Residência Universitária da Ufba, localizada no Corredor da Vitória, coincidentemente na avenida com o mesmo nome da data festiva.

Mesmo com a chuva insistente, o batalhão de soldados e oficiais, de vários segmentos, estufava o peito, enquanto o Governador do Estado revistava a tropa, em carro aberto, com a postura altiva que a ocasião necessitava.

Muitas pessoas prestigiavam o desfile, inclusive muitas crianças!

Do lado de cá, das grades da realidade da Residência, ironicamente, enquanto a nossa independência não chega, também tomamos “nossos banhos de chuva” obrigados pela nossa condição.

Há algum tempo que na Casa não existem chuveiros elétricos funcionando e somos obrigados a tomar banho frio, diariamente. Alguns residentes mais convictos, defendendo sua masculinidade, dizem que tomar banho quente é coisa de gente fresca como eu, de boiola, de gay, de viado mesmo. 


Outros, entravam disfarçadamente no “box quente” para que não percebessem que ele também gostava de banhar-se com uma água quentinha e agradável. Até mesmo os fãs e defensores do banho frio aumentavam a fila para o banho quente em dias frios ou chuvosos.


Essa questão e tantas outras, as quais somos obrigados a enfrentar diariamente, na residência ou na vida, passam pelo viés da nossa cultura. 

Venho de uma cidade que é a mais fria da Bahia! Em Vitória da Conquista já vivi temperaturas por volta dos 6 graus. Lá, culturalmente e climaticamente, não se toma banho frio, ao menos, nos dias mais quentes, “quebra-se a frieza da água” como diz meu avô.

Meu avô, por exemplo, quando vou visitá-lo, na roça - lá não tem energia elétrica- levanta de madrugada só para esquentar, no forno a lenha, a água para que eu lave meu rosto pela manhã, numa bacia branca de esmalte, tão característica daquela região. 


Ele não admite, de forma alguma, que eu lave o rosto na água fria, para ele é uma “desfeita”, chegando a dizer que levantar com o corpo quente e lavar o rosto na água fria faz mal! Este fato é tão peculiar que o sertanejo busca lenha para esquentar água para o banho, que é fervida em chaleiras e vasilhas grandes e velhas, já escurecidas pelo carvão do fogão à lenha.

O banho é tomado sempre antes de escurecer, em bacias grandes de alumínio. Depois da janta, do cafezinho quente e da prosa, antes de dormir, lavam-se os pés novamente, num gostoso escalda pés “arriado” com cacos de telhas e folhas de laranjeira ou tioiô.

Crendices e cuidados populares à parte, não adianta ficar aqui poetizando a situação atual, que nesse caso, não tem nada de poesia ou zelo. 

Imagine chegar na R1 cansado de um dia sufocante de trabalho, estudos e ser obrigado a tomar um banho super frio? Frio e escuro, pois a lâmpada do banheiro, diga de passagem, está queimada há séculos! 

Imagine agora a cena, só que de manhã, bem cedinho, às 6 da matina? Dá para sentir na pele? Imagine quando você está gripado, doente, com problemas nas amídalas ou coisa parecida? 

Depois quando o residente fica sujo e fedido é porque residente da UFBA é assim mesmo... Só sabem reclamar... Reclamam de barriga cheia... Querem regalias... Até banho quente agora, faça-me o favor!!


Hoje, em pleno Dia da Independência, exatamente às 12 horas, o almoço já tinha acabado!

Primeiro acabou o feijão, depois a carne e finalmente o arroz!

Enquanto a maioria das pessoas normais (residente não é gente, é uma espécie específica!), descansava nos seus lares ou viajava curtindo mais um feriadão, os pobres e carentes residentes universitários da R1- UFBA, ficaram sem seu almoço de independência!

E vocês pensam que os residentes reclamaram?!

Os que tinham dinheiro saíram para comer algo por ali mesmo, com a cara costumeira de residente. Outros esbravejam, como de costume, algumas palavras de efeito, desgastadas pelo discurso obsoleto, e mais nada!

Mesmo aqui, num exemplo de coletividade, é cada um por si e Deus por todos!

As tais comissões da Casa, específicas para tratar de assuntos e necessidades da residência e, conseqüentemente, dos residentes, sequer se posicionam em situações similares ou quando fazem um “grande feito” espalham comunicados na casa com mais uma pérola residencial: “Comissão operante é assim que faz”, ou algo parecido! Afinal, em tempo de política, a Propaganda é a alma do negócio! (...) 

Sem comentários!

Viver em coletividade é foda, desculpe a expressão, não dá para ensaiar e fingir que se pensa em todo mundo! Somos iguais ao nosso País, que 500 e tantos anos, ainda batalha por sua independência, por condições dignas para milhares de seus filhos, que assim como nós, não almoçaram hoje e não tomam banho quente!


Acho que aproveitando esta ocasião vou me candidatar para Presidente do Brasil com o lema: Adote um Residente!! Ou Residente também é gente, precisa de comida, carinho e banho quente!

Irei convocar os nossos ricos vizinhos da Vitória para contribuírem com esta campanha social, principalmente nos feriados e fins de semana! 

Nossa, vai ser o máximo! Um marco na Representação Estudantil no país!
Os residentes mais frescos, necessitados e famintos terão o privilégio de escolher qual o prédio ou mansão gostaria que o adotasse! 
As pessoas gostam de ajudar os outros, principalmente os pobres!

Depois, em troca da solidariedade ou favor do vizinho rico, faríamos um trabalhozinho para eles, dentro da nossa área de formação, o qual somaria horas de estágio nos nossos cursos acadêmicos! Não vai ser Fantástico?!




Se depender da consciência de tantos baianos e brasileiros, e dos modelos políticos e campanhas que temos visto, serei eleito no primeiro turno! Percebam a relevância política e social da minha campanha!!

Prometo ainda, caso seja eleito, dentre outras coisas, cotas para os residentes mais pobres de cada casa, ajuda financeira para comprar lanches noturnos, remédios para o estômago, antibióticos, banhos de sol, visitas íntimas e principalmente, (pausa dramática): Banho Quente para todos(as), com direito a massagem relaxante com garotos e garotas profissionais, para todos os gostos, aliviando o stress da vida louca dos residentes na capital, enquanto buscam sua formação e independência, junto ao nosso país residente!

Tão vendo como é fácil fazer política no Brasil!?

Obrigado a todos pela atenção e vejo vocês nas eleições!

E se por acaso não houver discurso, não estranhem, continuo gripado e rouco, a água continua fria, o banheiro escuro, assim como muita coisa por aqui!

Vota Brasil! Eleições 2006! 
Residente também é Gente!
Chuveiros quentes, já!



* Marcelo Benigno é ator, arte-educador, diretor teatral, graduando em Artes Cênicas pelas Ufba e residente universitário da R1 – no Corredor da Vitória, em Salvador.

sexta-feira, 7 de março de 2014

GUARDAR O QUÊ?!

GUARDAR O QUÊ?! 
ESCOLA MAIS E MAIS EDUCAÇÃO-  
POSSIBILIDADES REAIS NA CONSTRUÇÃO DE UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA NOS CAMINHOS DA ARTE-EDUCAÇÃO

Por Marcelo Benigno


Fui convidado para participar da Formação do Projeto Escola Mais e Programa Mais Educação que fazem parte dos projetos do Núcleo Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de Vitória da Conquista, hoje coordenado por Núbia Nadja Pereira, nesta nova gestão que começa o ano esparramando boas novas e prometendo muitas surpresas.

Estava em São Paulo quando Sandra, conterrânea do Guigó, parceira de muitas caminhadas com a Ceb´s e com o teatro na zona rural de Conquista, fez o contato sobre o interesse da minha participação e disse que o evento da Formação seria realizado entre os dias 25 a 27 de fevereiro (de terça feira a quinta-feira). O evento teria uma programação entre palestras e oficinas voltadas aos facilitadores e educadores dos Projetos Escola Mais e Mais Educação, que trabalham diretamente com letramento, atividades físicas e lúdicas e com a arte em suas ementas e ações, o que imediatamente ressoou em mim, dando mais intimidade e segurança no que propunha fazer, performar e questionar.
Então decidido, fiquei responsável pelas apresentações e intervenções artísticas durante o evento. 


ESPERANDO GODOT E O GIRASSOL: CAMINHOS DO SOL!

Logo na quarta-feira cedinho fui conferir o espaço do evento e não teve tempo para descanso! 
A Formação aconteceu no prédio do antigo Instituto São Tarcisio, hoje Faculdade São Agostinho, no bairro Recreio.Na quadra esportiva foi montado um palco para as apresentações e palestras, enquanto as oficinas eram realizadas nas salas do prédio. 
O palco estava armado quase num formato italiano, tendo público também nas arquibancadas, mas logo quando entrei no prédio, minha alma de artista de rua me jogou para o espaço de entrada, disposto em “u” com várias possibilidades de resignificações e visões para este momento de apreciação.



Não deu outra! Abri a tarde com um fragmento do texto: Esperando Godot, de Samuel Becket, datado de 1949, tal texto e tal autor conhecidos pelas reflexões existencialistas sempre a nos questionar como pessoas, educadores, artistas ou cidadãos...   

Esperar Godot ou ir em busca do que queremos?! 
Para completar o sentido da intervenção, fiquei o restante da tarde distribuindo sementes de girassol e rememorando a alguns, que chegaram atrasados e não viram a cena, qual o significado da mesma, frente a simbologia da flor do girassol. 

O que nos mantêm vivos e nos inspira? 
Ir em busca ou esperar pelo sol?! 
Se uma planta é capaz de girar no seu próprio eixo em busca do sol, o que nós somos capazes de fazer? 
Ficar esperando Godot ou ir em busca de possibilidades  de crescimento,  de encontros alegres e transformação?!  

Aceita uma semente de Girassol?!

A intervenção por mais simples que pareça reverberou nos presentes, e não é novidade, no Brasil outras similares viraram moda, desde desconhecidos que oferecem flores, abraços ou lêem carta de amor para transeuntes numa via pública, aos Flash Mobss, mais elaborados e modernos. 
Neste evento, as reações foram as mais variadas: desde o educador que se recusou a receber a semente de girassol, negando de todas as formas, apesar da minha insistência e contextualizações, às pessoas emocionadas que agradeceram e religaram imediatamente aquela energia. 


Fiquei pensando nestas questões todas, muito sérias e graves, ligadas a formação de um público para as artes ou na formação de profissionais que trabalham diretamente com a arte, cultura, esporte e lazer, o que me lembrou de imediato o mestre Gabriel Perissé:

Precisamos de criatividade autêntica para recriar a criatividade. Precisamos de uma didática criativa, em contraponto com uma didática não–didática. Um primeiro passo é repensar, reavaliar, (e revalidar) o modo como ensinamos arte. O passo seguinte será pensar no próprio ato de ensinar como ato artístico. É inconcebível, por princípio um professor ministrar arte-educação e ser ele mesmo esteticamente imaturo, alheio a uma compreensão abrangente da arte, carente de uma experiência apaixonada da fruição artística, ou até mesmo distante da prática artística (em alguma medida). Perissé

 TRÊS PERSONAGENS EM BUSCA DE UM ATUADOR!

Quinta feira ensolarada! O desafio do dia era fazer três intervenções para aproveitar o desejo estimulado de uma proposta quase triangular: contextualização histórica; fazer artístico; apreciação artística. Salve Ana Mae!

Depois de todas as reflexões e reações do dia anterior, de ter sentido o público, suas reações e necessidades, decidi aprofundar na reflexão sobre outras temáticas também importantes.

Escolhi para começar o dia “Pessoas”, um trabalho que me acompanha desde os tempos que cursava Letras, com textos de Fernando Pessoa e seus heterônimos, onde um personagem está em busca de caminhos a seguir, frente aos desafios, dúvidas e questionamentos desse homem contemporâneo. Oposto ao Godot, da intervenção anterior, esta personagem é mais realista e se depara na questão não de esperar, mas de seguir ou parar. 


Dessa vez, o público já tinha resignificado o espaço da entrada como espaço de apreciação, o que tornou a apresentação mais forte. 

A opção por não usar nenhum recurso tecnológico ou mecânico nessa intervenção foi justamente para reforçar o que é primordial para o teatro a meu ver: o texto, o trabalho de ator e o público.

Naquela encenação nova, configurada num banho rápido do personagem (podia ter estourado mais a água) ela, apontou o caminho a seguir, respingando numa recepção mais fluída e reverberada de forma mais intensa por todos.  Signos, simulacros, dramaturgia, elementos do teatro e da cena estudados cautelosamente numa constante resignificação das artes e do texto- poesia. 
Salve Fernando Pessoa!  


Resposta boa do público de educadores! Agora secar do banho, trocar de roupa, descer ao centro da cidade para fazer a barba; sai o masculino para entrar o feminino em cena, comprar cola para cílios (não achei em Conquista, pode isso?!), adequar o figurino, assumir de vez a discussão de gênero, arte, profissional e educador.

Entra em cena então, Madame Bovary!


Essa personagem faz parte da trajetória em minha carreira como artista e profissional dos palcos, das ruas e das salas de aula, assim como, também, aquele espaço onde a Formação estava sendo realizada. 

Para que o sentido se complete é necessário fazer um flashback rápido, exatamente para 1999, nesse mesmo espaço que foi realizada a Formação, só como sede do Instituto São Tarcísio

Há exatamente 15 anos, Núbia Nadja, então Coordenadora Pedagógico do IST e hoje atual Coordenadora Geral do Núcleo Pedagógico da SMED, me faz um convite tentador: assumir a cadeira de artes do colégio. 
Tal cadeira já tinha sido ocupada por nomes importantes no cenário artístico e cultural da Bahia e de profissionais de igual peso e suas múltiplas atuações, a saber; Ayrson Heraclito: artes visuais e performance; Mônica Medina: artes visuais e cinema; Sonia Leite: artes visuais e artes cênicas, e agora se apresentava a mim pelas artes cênicas e cultura popular. 

Nesse convite, Núbia se mostrava preocupada não só com a formação educacional dos alunos mais a formação artística-cultural desses estudantes, pois de certa forma, numa escola particular de conhecida fama e prestígio a inserção desse educando e sua compreensão de arte e cultura, a nosso ver, eram fundamentais, não só pautada na apreciação e em eventos, pois com poder aquisitivo alto como o deles, isso não seria nenhum problema. Assim, falei com a coordenadora arrojada que toparia o desafio, mas que ela teria que me dar carta branca para tal e assumir as minhas loucuras pela arte.

“Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?” F.P

Já dizia o poeta português na apresentação molhada. Ela então aceitou! Disse- lhe que trabalharia com uma estratégia metodológica do drama conhecida por professor-personagem:

A origem do teacher in role no drama inglês está diretamente relacionado ao trabalho de sua criadora Dorothy Heathcote, que iniciou sua carreira de professora em 1950, em Newcastle upon Tyne, Inglaterra, aos 24 anos. Influenciada pela experiência como aluna de dança de Rudolf Laban e com aluna de teatro de EsméChurch, Heathcote introduziu uma série de inovações técnicas para o uso do drama como base para o currículo, cuja principal delas é o procedimento do teacher in role. (Cabral, 2006)

Segundo Cabral: A expressão teacher in role foi traduzida para o português por Beatriz Cabral como professor-personagem e definida como uma estratégia na qual o professor assume personagens durante o processo de construção de uma narrativa cênica pelos alunos. (Cabral, 2006, p.19-20).

Assim criei e revisitei cerca de 10 personagens, dos mais variados status, para lecionar a disciplina Artes, no Instituto São Tarcisio, em 1999. Foi um desafio apaixonante e marcante para mim, acordar às cinco da manhã para se maquiar e se caracterizar, tomar café na rua de personagem, brincar com os taxistas vizinhos já incorporando a persona, ir a pé caracterizado quando o personagem pedia, voltar para casa montado...

Esta proposta mexeu com toda a escola de uma forma mágica- que só a arte consegue - muitos alunos falavam pelos corredores: Do que será que o “doido” vem hoje?! 

O adjetivo doido tem vários significados plausíveis para ilustrar tal imagem, mas preferir colocar aqui seus sinônimos: alheado, alienado, encantado, entusiasta, exaltado, extravagante, furioso, louco, temerário, tresloucado e varrido

Eles estavam mais do que certos!
Sempre fui um louco varrido e encantado pelas artes e assumir essa proposta exigiu do entusiasta aqui uma produção e um novo desafio diário a cada aula-apreciação, numa tentativa de reanimar e contextualizar este fazer-experiência em corpo vivo na sala de aula, reconfigurar o espaço, os alunos, o professor... nesse momento que cada vez mais tem se tornado monótono, cansativo, enfadonho, obrigatório, nada doido. E por falar em experiência (e não canso de rezá-lo e invocá-lo), meu santo espanhol mais devotado e arretado, Larrosa nos alerta:

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca(...). A informação não é experiencia. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informado, e toda a retórica destinada a constituirmos como sujeitos informantes e informados; a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de expreriência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado,porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”,mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. A primeira coisa que gostaria de dizer sobre a experiência é que é necessário separá-la da informação. E o que gostaria de dizer sobre o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado. ( BONDIA, 2002, p. 21  )

Pra não prolongar essa história, que sem dúvidas tem muito a acrescentar, Madame Bovary entra em cena numa aula no IST para falar sobre a Ópera e o Barroco. 

Na estratégia do teacher in role o professor não se coloca em nenhum momento, quem conduz a aula ou o encontro é a personagem, do seu ponto de vista, da sua vivencia e história.  

O caso com Madame Bovary tem um dado peculiar: nessa aula no IST, um aluno de sétima série, se não me engano, saiu da sala e foi reclamar com Núbia que não iria assistir à aula, pois tinha um professor vestido de mulher na sala.

No final do dia, a coordenadora sábia me chamou, explicou o ocorrido e disse:

- Sábado tem reunião de pais e mestres aqui na escola. Traga Madame Bovary!

A atitude da coordenadora além de surpreendente foi a mais acertada.
Convenhamos que ela podia usar de todo o seu poder para reprimir, podar, adequar, pedagogizar o professor de artes ali, mas fez exatamente o que prometera antes: foi parceira do professor na sua proposta!
Entrei então, aliás, Madame Bovary entrou na reunião de pais e mestres, acompanhada pelo músico Diego Silveira, solfejando falsetes e com o discurso-arte no corpo e na voz!

Parte da cena-discurso que fiz na reunião com os pais do IST, apresentei aos participantes da Formação, enquanto me descaracterizava da persona de época:  
- O professor de matemática usa aos números e a fórmulas; o professor de português a gramática e as normas; o de história das datas e acontecimentos históricos; (...) e o que usa o professor de artes?!


Foi revigorante ver incorporado no meu discurso-vida a resposta dos pais e da platéia atual sobre questões tão importantes e ainda atuais. 

Qual o papel do professor de artes ou do arte-educador na sala de aula? 
Que demandas, materiais, instrumentos, capacidades ele usa e domina? 
Qual a função e “utilidade” desse ensino e experiência para os estudantes e para a vida? 

É o que sempre digo, a prática tem que está emaranhada em você antes de tudo, de qualquer divagação teórica forçada e demasiadamente academicista, somos nós o discurso vida, do que acreditamos e pregamos!
Reviver esta memória de Bovary naquele espaço, quinze anos depois, e com Núbia novamente para reforçar sobre o papel do professor de arte e da arte na vida das pessoas, foi indescritível e mágico!
Vai entender o poder da arte e a espiral da vida?! Mistério...

BRINCANTE, CHICÓ, PALHAÇO ATUANTE. BOBO, NÃO!


Após a efêmera e lírica aparição de Bovary, voltei para a sala-camarim para trazer o último personagem do dia: um brincante, uma óbvia influencia popular do clown ancestral e do caipira que corre, em meus extratos e veias.
Ele, o brincante, mais gaiato que eu, trouxe a brincadeira à tona, dando pitaco nos educadores que saíram no meio de uma palestra para pegar o lanche, alvoroçados: Adoidas onças- disse o palhaço, ovacionado, em seguida pelos presentes. 
Após a gaiatice chicoense, ele fez sua brincadeira e montou com a platéia atuante uma frase emblemática: 

TODO EDUCADOR É UM ARTISTA? ! ... .

O Procedimento desse jogo de palavras era formar com o público uma ordem possível para as palavras e frases e as óbvias questões que implicam tais assertivas. 
Dar voz a quem realmente coloca a mão na massa e está na labuta. 
Foram distribuídas, ao todo, oito placas amarelas com as palavras e sinais citados acima, como se vê na fotografia abaixo.

Como o processo educacional e artístico se dá no coletivo é cada vez mais urgente deixar de ser platéia para ser atuador, assim o painel foi construído com a participação de todos (as)! 

No corpo dos educadores em cena, na frente do palco, um retrato diversificado de quem trabalha com arte nestes dois projetos; desde o consagrado bailarino e coreógrafo conquistense Chefinho Santos, ao ator e agora circense de tecido acrobático Téofilo Gobira, sem esquecer da linda moça negra de torço na cabeça, numa referencia a nossa ancestralidade africana e mitológica. 

Uma diversidade de tons, gêneros, credos, etnias que fazem parte desse processo de experiências e aprendizagem e não devem ser nunca ignorados, calados e não abordados nessas vivências! Esses são temas da ordem do dia, nunca secundários! Afinal, o que mais ficará em nós?!


O conhecimento e a experiência estética devem ser construídos juntos e não impostos. Tal informação teve eco na reprodução de uma música final para o evento, a velha padronização que ainda não nos escapa, mas que ficou evidente no resultado.
Essa padronização ou clichês sobre a arte e educação são demais cansativos, além de estar fora de moda. Clichê previsível de encerramento de evento faz o Criança Esperança com uma produção invejável, mas que não é o nosso caso! Sair do geral para o específico, do universal para o local, dos valores regionais, sobretudo, mudar os padrões, brincar com as referencias, ficar doido é mais a nossa cara!


FIM OU COMEÇO?!

O evento se encerra com as falas e agradecimentos a todos que participaram e contribuíram para sua a realização.
Ficou nítido o sucesso e satisfação nos comentários dos participantes sobre a Formação, dos que foram falados e dos que ouvi da platéia durante as intervenções. 

Na sexta feira pela manhã, ao conversar com Núbia, numa prévia de avaliação vi o quanto grande é o desafio dessa coordenação para esse ano, sobretudo, com a capacitação de educadores que trabalham com arte, lazer, letramento e atividades físicas para um novo olhar sobre a sua importância na vida desses educadores, educandos e comunidade, além de tantas demandas que a Secretaria tem. 

Vi que a minha loucura e doidice religa-se de imediato com a da coordenadora, também doida, por acreditar na possibilidade real dessa experiência de arte nessa cidade, nessas escolas de zona urbana e rural, nesses facilitadores, educadores, professores, equipe e a comunidade.


A coordenadora encerra a conversa citando um poema do qual diz que devemos guardar nos outros aquilo que acreditamos, não em estantes ou cofres, guardar essa experiência viva da arte, do afeto, do sensível, do teatro, nos extratos dos que religam conosco, não em armários fechados ou em teses e dissertações que não servem para nada.

Guardar é iluminar ou ser por ela iluminado! 

Dessa experiência toda de três dias volto para casa diferente, afinal, cada experiência deve nos modificar! Que possamos ser doidos guardadores de rebanhos, histórias, arte, vida, lições, afeto nos corações dos nossos educandos, dos nossos verdadeiros amigos, da nossa família, dos que queremos bem, da nossa comunidade.

Um agradecimento especial a todos que estiveram presentes nessa Formação, que religaram comigo nessa troca, ou na corrida da produção, ou no olhar, na intenção! Foi lindo!


Salvem os girassóis de Godot ou Van Gogh nesse prelúdio de um ano por vir cheio de desafios, arte e trabalho. Semeemos!



PS: As fotos do evento são créditos de Elisangela Aguiar e de Jéssica Marques. 
Obrigado queridas, por guardarem esta memória! 

E sobre as referencias bibliográficas citadas e o formato dessa escrita, não se preocupem, sintam a leitura sem amarras e preconceitos!  Quando formatar o texto para um artigo disponibilizarei todas, elas estão guardadas em mim, se alguém se interessar com urgência, me procure em corpo e alma para religarmos. Não quis interromper o fluxo da escrita com formatações e revisões agora. (...) Esta é uma primeira versão desta escrita! Meu processo de escrita é assim mesmo, me conheço e respeito meu processo. Não quis demorar para não esquecer, e este texto aqui não vai pontuar em nenhuma publicação ou quallis de rendimento acadêmico.(...) Prefiro desenquadrar a enquadrar!


Abaixo, o texto em questão, do poeta Antônio Cícero e link com interpretação de Fernanda Montenegro.


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


* *







quinta-feira, 26 de setembro de 2013

POR QUE EU DANÇO?! EVOCANDO A FORÇA DA PRIMAVERA- NASCER E MORRER EM OSTARA



POR QUE EU DANÇO?!
EVOCANDO A FORÇA DA PRIMAVERA- NASCER E MORRER EM OSTARA
Uma apologia as políticas públicas para a arte, cultura e formação de platéia na Bahia 





Tive a oportunidade de acompanhar de perto a temporada do Espetáculo Ostara- Primaveras em Sagração, dos alunos dos cursos de Licenciatura em Dança e Teatro da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia- UESB- JEQUIÉ, dirigido pelo professor e coreógrafo conquistense Aroldo Fernandes. O trabalho estreou na cidade de origem com uma calorosa resposta da platéia e foi selecionado, através de edital público, para compor a programação do Projeto Quarta que Dança, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Tal projeto completou em 2013, 15 anos de produções e espetáculos de dança em Salvador, inicialmente abrigado no Teatro do Spaço Xisto Bahia e só, recentemente, saindo de lá dando abertura a outros tipos de dança, espaços, cidades e formatos. Um dos objetivos do Projeto é contribuir para a difusão e visibilidade da produção atual da dança na Bahia e por conseguinte, a formação de platéia para a dança. Mas será que depois de 15 anos, e nesse novo formato, tem conseguido?!


Antes que este texto vire um texto manifesto sobre o que é realmente uma política de formação de platéia ou de interiorização- é o temo que eles usam para dizer que a cultura e verbas estão indo para o interior do estado- e ainda mais com a notícia do cancelamento do Quarta que Dança e de outros por uma ordem do senhor Rei Governador : “A medida se deve aos Decretos nºs 14.682 e 14.710/2013, que determina o contingenciamento no orçamento das secretarias e órgãos estaduais e estabelece medidas para a gestão de despesas e custeio, respectivamente”, gostaria de falar do espetáculo e tentar responder a questão que intitula estas linhas.

De inicio preciso falar de Aroldo Fernandes, o coreógrafo, que através de seu trabalho extremamente cuidadoso e de um requinte visível em toda sua dramaturgia, consegue montar uma obra inspirada na Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, numa data comemorativa de 100 anos de sua primeira execução pública, com estudantes em formação e no sertão jequiéense, com um rigor invejável! Só por este fato o trabalho tem um mérito importante e revela a forma de como ele, artista, coreografo, pesquisador e professor vê sua arte dentro e fora do seu habitat. Os mais sisudos da capital certamente falariam: Nossa, montar a Sagração da Primavera, um texto tão clássico e complexo, com meninos do interior?! E porque não? Só se monta no interior espetáculos populares? Qual a diferença do artista e profissional das artes da cena, que mora e produz no interior, para os artistas das capitais?!



PRA QUEM EU DANÇO?!

Aroldo já tinha participado do Projeto Quarta que Dança, em 2003, em Salvador, com o lindo trabalho “Cartas de Amor” junto com bailarina e também pesquisadora Iara Cerqueira e muito desse seu cuidado em coreografar e produzir se reflete neste trabalho na UESB, que junto a esse elenco de intérpretes criadores consegue criar um trabalho solfejado por um ritual sabbático, dentro da obra da Sagração.  

Seqüências circulares representam estágios de vida e morte e desenham figuras e pentagramas no espaço, símbolos fortes e presentes nas cerimônias primaveris. O vigor das seqüências e a atuação de um elenco bastante uníssono transpõe para a cena uma energia contagiante. O coreógrafo e sua equipe teve um cuidado especial com a estética e visual do trabalho, desde o figurino- destaque para os plásticos bolhas usados em grandes saias; à belíssima maquiagem- tatuagem- corporal que lembra as tatuagens de casamento indianos tão feminina e portadora de bons presságios. O cenário transformou o palco com folhas de eucalipto-doce de onde o cheiro exalava com os movimentos rápidos dos intérpretes. Galhos, troncos, mastros, nada é colocado sem significado num trabalho onde o signo é uma quase oferenda a deusa mãe.


As coreografias são fortes e a presença dos intérpretes também, destaque para Cinara Abreu que representa uma espécie de sacerdotisa - mãe - Gaia e dá as nuances de mudanças no trabalho, seguida da presença também marcante, dos dançarinos intérpretes Thiana  Barbosa, Maéli de Marcos, Samara Martins e Pyter Rodrigues. No elenco composto de seis homens e onze mulheres, literalmente neste ritual feminino os homens não têm vez, transferindo o foco necessário para a presença que vem do ventre, nesta dança ritual fertilizada. Só por esses detalhes o trabalho já seria bom, mas para marcar o final, milhares de imagens invadem e cobrem do palco ao corpo dos dançarinos, projetadas em toda sua extensão.
Em Salvador, no teatro do Centro Cultural Plataforma, neste momento a platéia que insistia em conversar desde o inicio da sessão, calou-se, maravilhada. 


POR QUE EU DANÇO?

Mas para que tanto requinte, pesquisa e zelo levados sem nenhum tipo de preparação num projeto que pretende ser um importante meio de difusão da produção atual da dança na Bahia e de formação de plateia? Formar plateia e difundir a dança não é  somente abrir um teatro e chamar o povo da rua para ver um espetáculo de graça, sem nenhum tipo de preparação anterior. Em Plataforma, por exemplo, o barulho do público presente foi tão grande e desagradável que incomodou a todos.  Eu, já parei meus espetáculos em Conquista, por muito menos e fiquei extremamente incomodado! Isto é formação de platéia?! Agora pensem comigo, na concepção inicial desse trabalho, as dançarinas intérpretes dançaram, em Jequié, de peito desnudo, e nada demais aconteceu, imagine se isso tivesse acontecido na Plataforma?! No TCA, em 2005, um elenco de dez dançarinos negros dançou nu “O Samba do Crioulo Doido”, de Luiz de Abreu, no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros. 

PRA QUEM EU DANÇO?!

Numa obra toda decodificada como Ostara, merecia-se, no mínimo, já que não é uma platéia do TCA e tão pouco do Xisto Bahia, de onde o projeto migrou, uma contextualização ou uma apresentação no inicio, avisando a plateia em formação, do que se tratava o trabalho, e relembrando a educação em espaços de espetáculos.  Engraçado, fazemos isso quando se precisa em projetos similares no interior...  Ai fico me perguntando, mais uma vez, será que não foi intencional colocar o grupo do interior na periferia de Salvador sem nenhum tipo de preparo e a notória falta de formação de plateia?! Duplo preconceito?! Pausa reflexiva.



O Teatro do Centro Cultural Plataforma é bem equipado, arrumado embora os técnicos soassem bastantes ríspidos em alguns momentos. Fico pensando, macaco velho de Festivais e palcos do Brasil por quê, no nosso estado, somos tão maltratados e subjugados?!
Apesar de tudo isso, de muitas falhas na produção, (o elenco sequer teve os programas do projeto para comprovar sua atuação, pois os mesmos acabaram antes de chegar) o trabalho se manteve intacto e forte.

O elenco segurou com garra uma plateia difícil e mal educada e brilhou, mostrando mais uma vez a força do artista e pesquisador do interior.
Ostara iria percorrer mais três cidades da Bahia, atingindo com isso outros territórios de identidade do estado, sendo que a maioria dos contemplados neste projeto preferiram ficar na capital.  Pausa de novidade.

Hoje, a classe artística de Salvador, que diz representar toda a Bahia, diante dos cortes em vários projetos e editais, tenta se reunir para tentar alguma reivindicação conjunta. Se for como os últimos dois Festivais de Teatro que aconteceram recentemente na capital baiana, onde sequer verificou a presença de nenhum grupo do interior do estado, (então são Festivais só de Salvador e não da Bahia inteira e seus 417 municípios como dizem) os artistas do interior estarão “lascados” como se diz no bom verbete popular local. 

To cansado de ficar toda hora mostrando aos novos gestores, produtores, pseudo artistas descolados e modernos das capitais, políticos e afins, que existimos, que temos uma história de luta, trabalho e resistência como artistas interioranos.  Pesquisando sobre a formação do artista do interior através da experiência do Grupo Caçuá de Teatro de Vitória da Conquista, que completou 15 anos agora em 2013, num mestrado feito fora do estado pude reconhecer e valorizar ainda mais o meu trabalho!

Ficar nesse gueto soteropolitano onde a política partidária, colonizadora quer mandar ou manda nos artistas locais é extremante desgastante e não combina com o meu perfil.
O interior ganha com espetáculos como Ostara, com pesquisas e trabalho em arte de seus filhos interioranos, que infelizmente, e muitas vezes, são obrigados a migrar para outras capitais, buscando espaços, reconhecimento, respeito e trabalho.  Um exemplo disso foi o convite da College of Southern Nevada feito ao coreógrafo Aroldo Fernandes, através de suas estadas fora do país, para levar um grupo de sete alunos da UESB, do curso de Licenciatura em Dança, para participar do "Las Vegas Dance in the Desert Festival" neste semestre, onde ministrariam oficinas e fariam a apresentação de três coreografias do repertório do grupo baiano. Ironicamente também era o aniversário de 15 anos do Festival de lá. Apesar do reconhecimento pelo trabalho de Aroldo e de como esta viagem seria importante para o grupo, e para a difusão da produção atual de dança na Bahia, a viagem embargou na falta de apoio local e estadual. 

POR QUE EU DANÇO?!

Se em Salvador as verbas e apoios para a cultura e arte estão restritos e boicotados, em Vitória da Conquista, que também há exatos 15 anos, justamente por uma política partidária ineficiente e excludente na área cultural, se anula de fazer algo pela cultura, arte e artistas locais. São 15 anos, minha gente, e memória não se apaga ou se esquece assim: vive-se!


POR QUE EU DANÇO?!



Meu evoé e admiração ao elenco e equipe de Ostara- Primaveras em Sagração, nesse trabalho lindo, que não deixa nada a desejar a nenhum trabalho de capital, e olha que eu ando e vejo muita coisa por ai... Parabéns a Aroldo pela perspicácia e paciência, pois peço a Dionísio, diariamente, que renove a minha, pois do jeito que a cultura e arte andam por estas bandas baianas, migrar novamente será o destino mais provável para esse sátiro catingueiro cansado de guerra e da desvalorização da arte e artistas no interior.


E como em Ostara coloco todos esses preconceituosos, preguiçosos, ensaletados de plantão (que ficam em suas salinhas ditando regras não experienciadas pela cultura e arte), com comparações e oportunidades desiguais que atravancam  os caminhos e o andamento do trabalho do artista das cenas na Bahia, sobretudo no interior,  dentro  dessa roda de fertilidade e energia, e nela, peço somente uma coisa: Tudo o que fizeres aqui voltaras para você três, voltará para você três vezes, voltará para você três vezes...
Salve a deusa!
Dignidade, respeito e valorização ao artista do interior.

POR QUE EU DANÇO?!

Para mudar esta situação, pois se não o fizer, literalmente sou eu quem “danço”!
Para os 15 anos do Caçuá!
Quem quiser acompanhar mais sobre o MOVAI:

As fotos usadas nesta publicação são de Patrícia Carmo.
Cartaz do espetáculo para estreia no Engenho de Composição, em Jequié. Design de André Bomfim, sobre foto de Érica Daniela.

Marcelo Benigno é ator, arte educador, professor de teatro, diretor do Grupo Caçuá de Teatro, em Vitória da Conquista- BA, idealizador do MOVAI- Movimento de Valorização do Artista do Interior.